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Rótulo "fit" enganou milhares: veja como identificar falsas promessas

Investigação revelou que biscoitos vendidos como ricos em proteína continham apenas metade do prometido, expondo falhas na fiscalização.
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"É um problema nutricional grave porque as pessoas pagam caro pelo controle nutricional e, infelizmente, descobrimos essa grande fraude contra as finanças do consumidor e contra sua saúde", declarou o deputado Vandinho Leite, presidente da Comissão do Consumidor da Assembleia Legislativa do Espírito Santo. A fala aconteceu após a descoberta de que biscoitos vendidos como "ricos em proteína" continham, na verdade, apenas metade da quantidade anunciada nos rótulos.

A fraude com os biscoitos da marca Whey Viv Fit foi descoberta em outubro de 2025, depois que consumidores passaram a relatar que não viam resultados esperados em suas dietas. Testes realizados pelo Laboratório Central de Saúde Pública comprovaram a irregularidade, levando à suspensão imediata da venda dos produtos em sabores como amendoim, cookies, banana, suspiro, gergelim e coco.

O caso não é isolado. Dois em cada três suplementos avaliados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária apresentam algum tipo de irregularidade, conforme o levantamento mais recente do órgão. Até julho de 2025, 65% dos suplementos analisados foram reprovados, expondo falhas em ingredientes, doses, validade e ausência de testes obrigatórios de pureza e estabilidade.

Rótulo
Créditos: Redação

A armadilha dos rótulos atraentes

O problema está na brecha regulatória que permite às empresas usar termos como "fit", "natural" e "saudável" sem fiscalização direta. Segundo informações do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, alegações como "baixo em", "alto conteúdo", "não contém" e "fonte de" são regulamentadas pela Anvisa, mas outros termos populares não possuem regulamentação específica.

Isso não significa que tudo é permitido. A publicidade que contém informação inteira ou parcialmente falsa, capaz de induzir o consumidor ao erro em relação às características e qualidades dos alimentos, é considerada enganosa e, portanto, ilegal. O desafio está na fiscalização efetiva dessas práticas.

O nutricionista Renan Simplício explica que os consumidores acabam sendo ludibriados pensando que estão comendo bem, quando na verdade não estão. "Os rótulos hoje não podem mentir, mas ainda assim as pessoas acabam sendo enganadas", alerta o especialista. Entre os principais vilões estão barrinhas de cereal com alto teor de açúcar, iogurtes light com adoçantes artificiais e pães integrais industrializados com pouca farinha integral de fato.

O mercado bilionário dos produtos "saudáveis"

O contexto por trás dessas fraudes revela um mercado em franca expansão. Produtos fitness movimentaram R$ 160 milhões apenas nas pequenas e médias empresas online em 2024, segundo dados da plataforma Nuvemshop. A venda de creatina, por exemplo, cresceu 346% em relação ao ano anterior, passando de 68 mil para mais de 300 mil itens comercializados.

Segundo projeção da Euromonitor Internacional, o setor de alimentos saudáveis deve crescer 27% no Brasil até o final de 2025. O mercado global de alimentos saudáveis movimentou US$ 554,04 bilhões em 2024, com expectativa de alcançar US$ 859,43 bilhões até 2030. Esse crescimento impressionante cria um ambiente propício tanto para inovações legítimas quanto para práticas fraudulentas.

A busca por um estilo de vida saudável, somada à preocupação com a estética e o desempenho físico, impulsiona consumidores a investirem cada vez mais em produtos rotulados como fitness. O problema surge quando essa demanda encontra fabricantes dispostos a usar marketing enganoso para aumentar suas vendas.

A nova rotulagem que tenta proteger o consumidor

Desde outubro de 2022, o Brasil adotou um novo sistema de rotulagem nutricional frontal que busca facilitar a identificação de produtos com excesso de nutrientes prejudiciais à saúde. O símbolo de uma lupa preta com o aviso "ALTO EM" seguido do nutriente em excesso — açúcar adicionado, gordura saturada ou sódio — deve aparecer na parte superior frontal das embalagens.

A implementação das novas regras, estabelecidas pela Resolução da Diretoria Colegiada nº 429/2020 da Anvisa, enfrentou resistência da indústria. O órgão regulador chegou a conceder prazo adicional de um ano para adaptação, mas a decisão foi derrubada pela Justiça Federal após ação civil pública apresentada pelo Instituto de Defesa do Consumidor.

A coordenadora pedagógica Nery Braz Veras, 39 anos, explica que as etiquetas ajudam muito na hora da compra. "A gente tenta ter mais consciência, acho que as lupas ajudam muito. É mais uma informação. Os biscoitos chamam mais atenção pra mim, e aí a gente faz a troca por algo mais saudável", conta.

Como identificar produtos verdadeiramente saudáveis

Para não cair em armadilhas, especialistas recomendam verificar alguns pontos essenciais nos rótulos. A lista de ingredientes é uma das informações mais importantes, pois os componentes aparecem em ordem decrescente de quantidade. Se o açúcar está entre os primeiros itens, o produto contém uma quantidade significativa desse ingrediente, independentemente do que a embalagem promete na frente.

Ingredientes como dextrose, maltodextrina e xarope de glicose são tipos de açúcar disfarçados sob outros nomes. A presença deles pode indicar que o produto não é tão saudável quanto o rótulo faz parecer. O mesmo vale para gorduras e aditivos químicos que aparecem com nomenclaturas técnicas difíceis de reconhecer.

A tabela nutricional passou por mudanças significativas. Agora é obrigatória a declaração de açúcares totais e adicionados, além do valor energético e de nutrientes por 100 gramas ou 100 mililitros, facilitando a comparação entre produtos. Produtos verdadeiramente saudáveis normalmente têm baixas quantidades de açúcares adicionados, gorduras saturadas e sódio, sendo ricos em fibras e proteínas.

Letícia Coelho, diretora-geral do Procon-ES, explica que quem comprou produtos irregulares pode pedir a devolução do dinheiro. "Os comerciantes, em princípio, não são suspeitos, mas não podem comercializar, pois assim estarão entrando na ação solidariamente e estarão sujeitos a multas de até R$ 14 milhões", afirmou.

A preferência por alimentos minimamente processados

Nutricionistas são unânimes ao recomendar que a melhor escolha continua sendo alimentos minimamente processados. Frutas, vegetais, nozes, sementes e grãos integrais in natura oferecem benefícios nutricionais superiores aos ultraprocessados, mesmo aqueles com rótulo "fit".

O consumo de arroz e feijão, por exemplo, diminuiu entre os brasileiros na última década, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, enquanto o consumo de produtos industrializados aumentou. Essa substituição nem sempre representa uma escolha mais saudável, apesar do apelo dos produtos processados.

Preparar versões caseiras de lanches e refeições pode ser uma alternativa interessante para quem busca alimentação saudável de verdade. Quanto menor a lista de ingredientes no rótulo, melhor. Menos ingredientes significam menos aditivos, conservantes e aromatizantes, elementos que podem comprometer o valor nutricional do alimento.

Para quem busca opções de comida caseira, vale lembrar que ingredientes frescos e até orgânicos deixam a alimentação cada vez mais saudável e saborosa, uma vez que ficam parcialmente livres de conservantes e temperos industrializados.

O caso dos biscoitos fraudulentos no Espírito Santo serve como alerta. A próxima fase da operação que descobriu a fraude vai mirar suplementos nutricionais com suspeita de divergência entre o conteúdo e as informações do rótulo. A investigação será repassada à Polícia Civil do Rio de Janeiro, onde fica a fábrica dos produtos irregulares.

Entre 2020 e 2025, 63% das investigações abertas pela Anvisa na área de alimentos foram relacionadas a suplementos — o maior índice entre todos os grupos regulados. As irregularidades vão desde ausência de estudos de estabilidade até ingredientes proibidos e rótulos com alegações terapêuticas falsas.

Desconfiar de produtos que prometem resultados rápidos ou milagrosos continua sendo uma estratégia eficaz. Suplementos que alegam "cura", "emagrecimento rápido" ou "ganho de massa em poucos dias" devem ser evitados. A orientação é sempre buscar acompanhamento profissional de nutricionistas antes de incluir qualquer suplemento na rotina alimentar.


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