O armário do banheiro pode parecer inofensivo, mas nos últimos meses ele virou um ponto de atenção importante para a saúde de muitas famílias brasileiras. Repelentes, protetores solares e alisantes capilares de marcas populares foram alvo de ações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que identificou irregularidades que vão de fórmulas alteradas a substâncias proibidas. O momento é de fazer um pente-fino nos produtos que você usa no dia a dia antes de aplicá-los na pele ou nos fios.
O alerta não é de menor importância. Produtos com fórmula diferente da autorizada podem entregar uma proteção muito abaixo do prometido no rótulo — ou, no caso dos alisantes, causar danos sérios ao couro cabeludo e às vias respiratórias. Identificar o que descartar e entender como escolher substitutos seguros é mais simples do que parece. Este guia reúne tudo que você precisa saber.

O que a Anvisa proibiu recentemente
Em abril deste ano, a Anvisa publicou a Resolução RE 1.743/2026, determinando a proibição imediata de fabricação, distribuição, venda e uso de uma série de produtos da empresa Henlau Química. A investigação, desencadeada após inspeção realizada entre 14 e 17 de abril, constatou que os produtos eram fabricados com fórmulas diferentes das autorizadas pelo órgão regulador.
Entre os itens recolhidos estão nomes bem conhecidos nas farmácias e supermercados brasileiros. Os repelentes afetados incluem o Repelente Gel Baby Amorável, o Needs Repelente de Insetos com Icaridina Spray Kids e a versão Gel Kids, além do Sunlau Spray Repelente Deet. Na categoria de proteção solar, foram suspensos o Sunlau FPS 30 Loção UVA/UVB com Vitamina E e o Protetor Solar FPS 30 da marca Wurth. Todos os lotes produzidos a partir de agosto do ano anterior estão sujeitos ao recolhimento.
A medida também determinou a suspensão de toda a linha cosmética da empresa. Se você tiver qualquer produto da Henlau Química em casa — independentemente da categoria — a recomendação da Anvisa é interromper o uso imediatamente e entrar em contato com o SAC disponível no rótulo para solicitar informações sobre devolução ou descarte adequado.
Por que fórmulas alteradas são um risco real
A mudança de fórmula sem nova aprovação sanitária não é apenas uma irregularidade burocrática: ela tem consequências práticas diretas. No caso dos protetores solares, a alteração pode fazer com que o FPS indicado na embalagem simplesmente não corresponda à proteção real oferecida. Em termos práticos, você aplica o produto acreditando estar protegido com FPS 30, mas a pele pode estar recebendo muito menos cobertura do que o esperado.
Para os repelentes, o problema é ainda mais preocupante num país como o Brasil, onde dengue, zika e chikungunya circulam ativamente. Uma fórmula fora do padrão autorizado pode ter eficácia reduzida contra o mosquito Aedes aegypti, deixando crianças e adultos vulneráveis a picadas que seriam evitáveis. Com produtos infantis na lista de proibidos, o cuidado precisa ser redobrado. Vale verificar o lote do repelente que está na sua casa antes de qualquer saída ao ar livre.
O alerta sobre alisantes com formol e ácido glioxílico
Em paralelo às ações sobre protetores e repelentes, a Anvisa publicou o Informe de Segurança GGMON nº 03/2025, dedicado exclusivamente aos riscos de alisantes capilares irregulares. O documento reforça uma proibição que existe há anos, mas que ainda encontra resistência no mercado informal: o uso do formol (formaldeído) como agente alisante é absolutamente vedado no Brasil.
O formol é permitido em cosméticos apenas em duas situações específicas: como conservante, em concentrações de até 0,2%, e como endurecedor de unhas, até 5%. Qualquer produto que utilize a substância para alisar fios está fora da lei — e quem adicionar formol a cosméticos para fins não autorizados pode responder por crime hediondo, conforme o artigo 273 do Código Penal Brasileiro. A pena não é pouca.
O ácido glioxílico também está no radar da Anvisa. Muito utilizado em progressivas chamadas "sem química" ou "orgânicas", ele não é autorizado para alisamento capilar e se torna especialmente perigoso quando aquecido com chapinha ou secador. Os danos vão de ressecamento e quebra dos fios até irritações graves no couro cabeludo e comprometimento respiratório em ambientes fechados.
Como identificar um produto irregular no armário
A boa notícia é que verificar a regularidade de um cosmético é rápido e gratuito. Todo produto regularizado pela Anvisa traz na embalagem um número de processo que começa com "25351." — ele funciona como a identidade sanitária do item e permite rastrear todas as informações no portal oficial da agência. Se esse número não estiver em nenhuma parte da embalagem, é um sinal claro de irregularidade.
Além do número de processo, observe outros elementos obrigatórios: nome do fabricante com CNPJ, lista completa de ingredientes (em ordem decrescente de concentração), prazo de validade e instruções de uso. Embalagens com texto predominantemente em outro idioma sem tradução para o português, ausência de importador responsável no Brasil e preços muito abaixo da média de mercado para marcas conhecidas são também sinais de alerta relevantes.
Antes de comprar um novo produto — seja repelente, protetor solar ou alisante — vale alguns minutos no portal da Anvisa para confirmar o registro. Essa verificação é ainda mais importante para produtos adquiridos em marketplaces, redes sociais ou grupos de mensagem, canais onde cosméticos irregulares costumam circular com mais facilidade. Se quiser entender como fazer essa checagem em kits de beleza, este guia explica o passo a passo de forma bem prática.
O que fazer se você já usou um produto proibido
Se você identificou na sua casa algum dos itens listados nas resoluções da Anvisa, a primeira medida é parar de usar imediatamente. Guarde a embalagem como evidência, anote o lote e a data de validade impressa no produto, e entre em contato com o SAC da empresa ou com o estabelecimento onde fez a compra. Em casos de compras online, registre também uma reclamação no consumidor.gov.br ou no Procon da sua cidade.
Se após o uso você notou qualquer reação — coceira, ardência na pele, irritação nos olhos ou dificuldade para respirar —, procure atendimento médico e informe que o produto está na lista de recolhimento da Anvisa. Reações adversas relacionadas a cosméticos podem e devem ser notificadas pelo sistema e-Notivisa, disponível no portal oficial da agência. Cada notificação alimenta o sistema de cosmetovigilância e contribui para a proteção de outros consumidores.
Para quem sofreu reação com um alisante e deseja saber mais sobre como cuidar dos fios depois de um processo químico agressivo, estes cuidados com a pele também se aplicam ao couro cabeludo e podem ajudar a recuperar o equilíbrio da região.
Como escolher substitutos seguros
Com os produtos irregulares descartados, chegou a hora de recompor o armário com opções confiáveis. Para repelentes, a Anvisa recomenda produtos com os princípios ativos DEET (N,N-dietil-meta-toluamida), Icaridina ou IR3535 — todos com registro ativo na agência. Leia o rótulo com atenção: para crianças menores de dois anos, produtos com DEET são contraindicados; para a faixa de 2 a 12 anos, a concentração máxima permitida é de 10%.
Na hora de escolher um novo protetor solar, priorize produtos com FPS 30 ou superior, proteção UVA e UVB e registro ativo na Anvisa. Reaplique a cada duas horas em dias de exposição prolongada — uma orientação simples, mas frequentemente esquecida. Lembre-se também que o uso correto do protetor está diretamente ligado à prevenção do envelhecimento precoce; veja como montar uma rotina de cuidados completa com a pele.
Para alisamentos, a orientação da Anvisa é clara: escolha apenas produtos com registro ativo no portal da agência, evite promessas do tipo "progressiva sem química" ou "100% orgânico" sem comprovação, e recuse procedimentos em salões que não apresentem a embalagem completa do produto utilizado. Profissionais de beleza também têm a obrigação de recusar o uso de substâncias proibidas, mesmo a pedido do cliente.
O checklist rápido para revisar o armário hoje
Para facilitar a triagem, reúna todos os produtos do armário do banheiro — não só os itens da lista de recolhimento — e aplique o seguinte filtro:
- Confira se há o número de processo Anvisa na embalagem (começa com "25351.").
- Verifique se o produto não está na lista de recolhimentos publicada no portal da Anvisa.
- Cheque o prazo de validade — produto fora da validade deve ser descartado, mesmo que pareça intacto.
- Observe a aparência: mudança de cor, odor alterado ou textura diferente da original são sinais de deterioração.
- Descarte embalagens danificadas, estufadas ou com tampas comprometidas, independentemente do prazo.
- No caso de alisantes, verifique se formol ou ácido glioxílico constam entre os ingredientes.
Produtos vencidos ou irregulares não devem ser jogados no lixo comum nem descartados pelo esgoto. O descarte correto é feito em pontos de coleta de resíduos de saúde ou farmácias parceiras do programa de logística reversa. Dúvidas sobre como identificar produtos estragados ou fora do prazo em casa também podem surgir em outros contextos domésticos — entender os sinais básicos de deterioração é um hábito de segurança que se aplica muito além da cozinha.
Manter o armário do banheiro em ordem não é exagero nem paranoia. É uma decisão informada de cuidar de si e da família com a mesma atenção que você dedica a qualquer outro aspecto da saúde no dia a dia.

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