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Calor rouba 3 noites de sono por mês: saiba como se proteger

Estudo mostra relação direta entre temperatura elevada e perda de sono. Especialistas explicam impactos na pressão arterial e saúde.
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A cada grau Celsius que a temperatura sobe, três noites de sono podem ser perdidas ao longo do mês. O dado, publicado no periódico científico Science Advances, revela uma relação direta entre o calor e a qualidade do descanso noturno — problema que afeta milhões de brasileiros durante o verão. Quando as temperaturas ultrapassam os 35°C com alta umidade, o organismo simplesmente não consegue funcionar como deveria, explica o coordenador de pronto-socorro do Hospital Sírio-Libanês, Luiz Fernando Penna.

As temperaturas elevadas registradas nas últimas semanas em diversas regiões do Brasil trouxeram à tona uma preocupação crescente: os impactos do calor extremo sobre a saúde cardiovascular e o sono. Diferente do que muitos imaginam, não existe um único vilão quando o assunto é bem-estar durante as ondas de calor. O corpo humano reage de maneiras complexas às altas temperaturas, afetando desde a pressão arterial até os ciclos de descanso.

Calor rouba 3 noites de sono por mês: saiba como se proteger
Créditos: Redação

Como o calor mexe com a pressão arterial

Quando o termômetro dispara, os vasos sanguíneos se dilatam naturalmente — processo conhecido como vasodilatação. Segundo o cardiologista Carlos Alberto Pastore, do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da USP, essa resposta fisiológica leva à queda de pressão em muitas pessoas. Os mais afetados são idosos, que geralmente já fazem uso de medicamentos anti-hipertensivos e sofrem com a mudança repentina na dinâmica do sangue.

Mas o cenário é mais complicado do que parece. O mesmo especialista alerta que continua sendo possível que a pressão de pessoas hipertensas suba durante o calor, já que organismos sensíveis têm reações vasculares mais exacerbadas. Essa gangorra cardiovascular é perigosa: quando a pressão cai repentinamente e volta a subir de forma brusca, aumentam os riscos de infarto ou AVC.

Pesquisa realizada em Ontário, no Canadá, analisou internações hospitalares entre 1996 e 2013 e confirmou: tanto em dias muito frios quanto muito quentes, observou-se aumento no número de internações por problemas cardiovasculares. O cardiologista Francisco Flávio Costa Filho destaca que os extremos de temperatura representam alertas para quem convive com hipertensão.

A desidratação agrava o quadro. Ela causa hipotensão e taquicardia compensatória, sobrecarregando o coração. Para evitar o problema, o coordenador da Unidade Cardiointensiva do Hospital Badim, Felipe Cosentino, recomenda consumir água regularmente e bebidas isotônicas para manter o equilíbrio eletrolítico.

O que acontece com o sono durante o calor

Dormir bem exige que o corpo atinja uma temperatura específica. O ciclo circadiano — relógio interno que regula funções ao longo do dia — controla tanto o sono quanto a temperatura corporal. Durante a noite, ela precisa cair naturalmente para que o descanso aconteça de forma adequada. Temperaturas acima de 27°C causam perturbações no sono, conforme aponta o neurologista Shigueo Yonekura, especialista em Medicina do Sono.

A melatonina, conhecida como hormônio do sono, desempenha papel fundamental nesse processo. Produzida pela glândula pineal quando a luz ambiente diminui, ela favorece a perda de calor pela pele e reduz o ponto de ajuste térmico no cérebro. Esses mecanismos estão diretamente relacionados ao aumento de sonolência e à indução do sono. Noites quentes impedem esse resfriamento natural, forçando o corpo a lutar contra o calor para alcançar o relaxamento necessário.

Estudo holandês de 2016 descobriu que um aumento de apenas 1°C na temperatura ambiente resultou em crescimento de 11% nos distúrbios do sono. Em ambientes internos, esse índice chegou a 24%. O sono se torna fragmentado e menos restaurador, prejudicando o desempenho físico e mental no dia seguinte. A qualidade do descanso impacta diretamente a capacidade de enfrentar as atividades cotidianas.

Pesquisa brasileira da Fundação Oswaldo Cruz, divulgada em fevereiro de 2025, comprovou que as altas temperaturas estão relacionadas ao aumento da mortalidade no Rio de Janeiro. O risco é maior para idosos e pessoas com diabetes, hipertensão, Alzheimer, insuficiência renal e infecções urinárias. O trabalho analisou mais de 800 mil mortes entre 2012 e 2024.

Hábitos que fazem diferença sem milagres

Não existem soluções mágicas, mas pequenas mudanças na rotina ajudam o organismo a lidar melhor com o calor intenso. A pneumologista e médica do sono Roberta Couto recomenda manter o espaço de dormir em temperatura ideal usando ventiladores ou ar-condicionado. O ambiente fresco facilita o processo natural de resfriamento corporal necessário para o descanso.

Banhos mornos antes de dormir regulam a temperatura do corpo, promovendo relaxamento. Contrariando o senso comum, água gelada deixa o organismo alerta. Outro truque é não secar completamente o corpo após o banho — deitar com a pele levemente úmida ajuda na troca de calor com o ambiente.

Roupas leves fazem toda a diferença. Tecidos naturais como algodão e linho absorvem o suor e permitem o controle natural da temperatura corporal. Essa regra vale tanto para o pijama quanto para as roupas de cama. Evite tecidos sintéticos como poliéster, que retêm calor e dificultam a ventilação.

A alimentação merece atenção especial. Comidas pesadas à noite — alimentos muito condimentados ou gordurosos — aumentam o metabolismo e dificultam o descanso. Durante a digestão, o organismo continua ativo, o que atrapalha o sono. O ideal é consumir refeições leves pelo menos duas horas antes de dormir: saladas, peixes magros, frutas frescas e vegetais ricos em água como pepino e melancia.

Evitar bebidas estimulantes também é essencial. Café, refrigerantes, chá preto e chá verde aumentam o estado de alerta para mente e corpo. O álcool, embora pareça relaxante, interfere no ciclo do sono e causa desidratação. Exercícios físicos devem ser praticados durante horários mais frescos do dia, preferencialmente pela manhã ou no final da tarde.

Quando o calor vira emergência médica

Alguns sinais indicam que o corpo não está conseguindo lidar com a temperatura elevada. Falta de ar que não melhora com repouso, dor torácica, tontura ou desmaio, palidez, palpitações intensas e queda da pressão ao se levantar são sintomas que exigem avaliação médica imediata. Eles podem indicar descompensação cardiovascular.

O cardiologista Vítor Magnus Martins, do Hospital Moinhos de Vento, ressalta que embora crianças e idosos sejam mais vulneráveis aos problemas causados pelo calor, temperaturas extremas podem ocasionar problemas de saúde em qualquer pessoa. Quem faz uso de diuréticos, betabloqueadores ou inibidores da enzima conversora de angiotensina deve ter atenção redobrada.

Pacientes com cardiopatias precisam de um plano de ação para períodos de calor intenso, incluindo estratégias para resfriamento corporal e contato rápido com profissionais de saúde caso surjam sintomas de descompensação. O ajuste de medicações pode ser necessário durante ondas de calor, mas essa mudança deve sempre ser feita pelo cardiologista.

Pessoas que não conseguem dormir direito há três meses devem procurar auxílio médico, alerta o especialista Marco Aurélio Marreco. Postergar essa ida ao médico por anos dificulta o tratamento. A falta crônica de sono pode desencadear quadros de ansiedade e pânico em quem tem predisposição, além de aumentar as chances de arritmia cardíaca ou AVC em hipertensos.

Manter janelas abertas para permitir a circulação do ar, evitar mudanças bruscas de temperatura e monitorar a pressão arterial são medidas simples que ajudam a atravessar o verão com mais segurança. O impacto do calor na saúde é frequentemente subestimado, mas as evidências científicas mostram riscos reais que vão muito além do mal-estar passageiro.


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