Receber um presente inesperado na porta de casa parece uma situação emocionante. Mas esse cenário tem sido usado como armadilha por criminosos com frequência crescente no Brasil. O chamado golpe do presente explora a surpresa e a emoção do momento para fazer a vítima baixar a guarda — e pagar muito mais do que deveria. Segundo o Relatório de Identidade e Fraude da Serasa Experian, o país registra uma tentativa de fraude a cada 2,8 segundos, e mais da metade dos brasileiros já sofreu prejuízo financeiro direto.

Como o golpe do presente funciona
Tudo começa antes do entregador aparecer à sua porta. Os criminosos obtêm dados pessoais da vítima — como nome, endereço e até data de aniversário — por meio de vazamentos ou redes sociais. Com essas informações, entram em contato via WhatsApp, SMS ou telefone, se passando por representantes de uma loja conhecida, perfumaria ou supermercado. O roteiro costuma ser convincente justamente porque usa o nome da vítima e detalhes que parecem legítimos.
A mensagem informa que a pessoa ganhou um brinde especial — flores, cosméticos ou um bolo — e que um entregador já está a caminho. A emoção diante de uma surpresa faz com que a maioria não questione a situação de imediato. Quando o entregador aparece, ele apresenta um item de baixo custo e exige o pagamento de uma suposta "taxa de entrega" ou "frete", com o argumento de que o remetente não cobriu o custo do envio.
Esse detalhe parece plausível o suficiente para convencer quem já está empolgado com o suposto mimo. Em datas comemorativas, quando a expectativa por presentes é real, o nível de suspeita tende a cair ainda mais. É exatamente essa janela emocional que os golpistas exploram com precisão cirúrgica.
A maquininha adulterada: o truque principal
É no momento do pagamento que o golpe se concretiza. O entregador apresenta uma maquininha de cartão com o visor danificado, quebrado ou coberto com fita adesiva. A vítima não consegue ver o valor real cobrado — e acaba pagando muito mais do que o combinado verbalmente. O golpista anuncia, por exemplo, que a taxa é de R$ 15,00, mas o equipamento está configurado para cobrar R$ 150,00 ou mais.
Sem conferir a tela, a pessoa insere a senha e a fraude está consumada. Para quem tenta depois identificar compras desconhecidas na fatura do cartão, nem sempre é simples perceber o valor real debitado naquele momento. A confusão com o nome do estabelecimento na fatura atrasa ainda mais a identificação da fraude.
Em casos mais elaborados, o golpista simula um "erro" na transação para que a vítima tente pagar novamente — com outro cartão ou via Pix. Esse segundo pagamento também é fraudulento. O resultado é que a pessoa paga duas vezes por um item sem valor, e seus dados bancários ficam expostos para novos crimes.
Selfie e dados pessoais: o perigo vai além
Uma variante ainda mais perigosa do golpe envolve a solicitação de uma selfie da vítima. O falso entregador pede uma foto do rosto para "confirmar o recebimento do presente" — prática que parece protocolar em tempos de entregas por aplicativo. Mas a imagem é usada para fins criminosos: com ela, os golpistas tentam acessar contas com reconhecimento facial, abrir contas digitais em nome da vítima e contratar empréstimos.
Outra armadilha é o chamado "aplicativo de confirmação de entrega". O criminoso pede para a vítima inserir dados — ou até uma senha bancária — num app instalado no próprio celular dele. Na prática, esse app é uma interface bancária disfarçada, capaz de autenticar transações e esvaziar contas em poucos segundos. Fique atento a qualquer pedido que vá além do simples recebimento de um produto.
Quem já teve dados expostos por outros meios, como aplicativos falsos instalados no celular, corre risco dobrado: os criminosos cruzam informações de diferentes fontes para tornar o golpe ainda mais convincente e personalizado.
Datas comemorativas são usadas como isca
Não é coincidência que esse tipo de fraude se intensifique em datas como Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia dos Namorados e Natal. Nesses períodos, as pessoas genuinamente esperam receber presentes de familiares e amigos — o que aumenta muito a probabilidade de aceitar uma entrega inesperada sem questionar. A expectativa emocional reduz o senso crítico.
A Associação Brasileira de Bancos (ABBC) emitiu alertas específicos sobre o golpe no período do Dia das Mães, destacando que os criminosos se passam por representantes de lojas de roupas, perfumarias e supermercados. A campanha Tem Cara de Golpe listou essa fraude entre as mais frequentes da data. Também é fundamental acompanhar os alertas do Banco Central sobre golpes com cartão, Pix e empréstimos, que seguem sendo atualizados conforme surgem novas modalidades.
O volume de entregas legítimas nessas épocas também facilita o trabalho dos golpistas. Em meio a tantos pacotes e motoboys circulando nos bairros, um falso entregador passa despercebido com facilidade. Segundo a Agência Brasil, as vendas no Dia das Mães cresceram 6,8% em relação ao ano anterior, ampliando o cenário de risco para consumidores desatentos.
Como se proteger na hora da entrega
A principal defesa é a desconfiança diante de cobranças inesperadas. Quando alguém envia um presente de verdade, o frete já costuma estar pago pelo remetente. Qualquer entregador que exija pagamento na porta antes de entregar o produto merece atenção redobrada. Não existe brinde gratuito que precise ser pago para ser recebido — essa lógica, sozinha, já desfaz o golpe.
Se você decidir pagar, siga estas precauções:
- Nunca insira o cartão na maquininha sem verificar o valor no visor
- Se a tela estiver quebrada ou coberta, recuse a transação imediatamente
- Não entregue seu cartão ao entregador — insira e opere você mesmo
- Cubra o teclado com a mão ao digitar a senha
- Exija o comprovante da operação antes de o entregador ir embora
- No Pix, confirme se o recebedor é uma empresa, não uma pessoa física desconhecida
- Jamais tire selfie a pedido de um entregador
Antes de qualquer pagamento, tente confirmar com o suposto remetente. Uma ligação rápida para o familiar ou amigo que supostamente enviou o item resolve a dúvida em segundos. Se não conseguir falar com ninguém, não pague. A regra é simples: a dúvida vale mais do que a surpresa.
Fui vítima do golpe: o que fazer agora
Se você percebeu que caiu no golpe do presente, a velocidade de resposta é fundamental. O primeiro passo é entrar em contato com o banco ou operadora do cartão para bloquear o cartão e contestar a transação. A maioria das instituições financeiras brasileiras aceita contestações de cobranças não reconhecidas em prazos que variam de 30 a 90 dias após a data da transação.
Em seguida, registre um Boletim de Ocorrência (B.O.) — presencialmente na delegacia mais próxima ou pela internet, por meio das Delegacias Eletrônicas disponíveis nos estados. Inclua o máximo de detalhes: data e hora da entrega, descrição do entregador, número da maquininha, comprovantes e prints de conversas. Esse registro é indispensável para qualquer processo de ressarcimento junto ao banco.
Crimes digitais e fraudes financeiras também podem ser denunciados à SaferNet Brasil (safernet.org.br), que orienta vítimas de golpes. O Procon do seu estado é outro canal importante para registrar a ocorrência e buscar reparação. Quanto mais rápida for a ação, maiores as chances de minimizar o prejuízo — e de contribuir para que outras pessoas não sejam enganadas da mesma forma.

Comentários (0) Postar um Comentário