A busca por "grooming masculino" aumentou 250% no Google nos últimos três meses. Os números revelam uma mudança cultural significativa: homens brasileiros estão abraçando o autocuidado sem os estigmas do passado. Diferente do que se imaginava há uma década, quando o mesmo sabonete servia para corpo, rosto e até barba, hoje 72% dos brasileiros demonstram interesse ativo em produtos específicos de higiene pessoal, segundo pesquisa da Kantar.
Essa transformação não se trata apenas de vaidade. O suor excessivo e o mau odor corporal afetam diretamente a qualidade de vida, causando constrangimento social e impactando até oportunidades profissionais. A boa notícia é que resolver o problema não exige rotinas complexas nem gastos excessivos.

O que realmente causa o mau odor
O suor em si não possui cheiro. A informação surpreende muita gente, mas está cientificamente comprovada: são as bactérias naturalmente presentes na pele que, ao decompor o suor, geram compostos voláteis responsáveis pelo odor desagradável. A Sociedade Brasileira de Dermatologia explica que existem dois tipos de glândulas sudoríparas no corpo humano.
As glândulas écrinas distribuem-se por praticamente toda a pele e produzem suor composto principalmente por água e sal. Já as glândulas apócrinas concentram-se em regiões específicas como axilas, virilha e área genital. Essas últimas secretam um suor mais viscoso e rico em proteínas, criando o ambiente perfeito para proliferação bacteriana.
Quando o problema se torna persistente mesmo com higiene adequada, pode caracterizar uma condição médica chamada bromidrose. Diferente do que muitos pensam, não se trata de falta de asseio. "A bromidrose é uma condição médica legítima, resultado de uma complexa interação regida pela genética, hormônios e o microbioma de cada pessoa", esclarece estudo publicado pela dermatologia brasileira.
Mais de 6 milhões de brasileiros sofrem com hiperidrose, a produção excessiva de suor. Segundo o Manual MSD, essas pessoas transpiram profusamente mesmo sem exposição ao calor ou esforço físico. A condição surge geralmente na infância ou adolescência e pode persistir por décadas.
Desodorantes e antitranspirantes: entenda a diferença
A confusão entre desodorantes e antitranspirantes leva muitos homens a escolher o produto errado para suas necessidades. Desodorantes mascaram odores com fragrâncias e têm duração limitada de algumas horas. Antitranspirantes, por sua vez, contêm alumínio na fórmula e bloqueiam temporariamente os dutos que liberam o suor.
Estudos recentes teorizaram que antitranspirantes à base de alumínio poderiam aumentar riscos à saúde, mas segundo especialistas consultados pelo ClickGratis, não há comprovação científica definitiva dessas afirmações. A Agência Europeia de Medicamentos reconhece alternativas naturais como a sálvia para quem prefere evitar o alumínio.
Para casos mais intensos, produtos com cloreto de alumínio hexahidratado são mais eficazes que antitranspirantes comerciais comuns. Esses produtos, disponíveis sob prescrição dermatológica, devem ser aplicados sobre pele seca antes de dormir. A aplicação inicial é mais frequente até controlar a transpiração, depois uma ou duas vezes por semana mantém os resultados.
Rotina prática em 5 passos
Gabriel Rezende, barbeiro e especialista em grooming masculino da Keune, compartilha uma rotina eficiente que leva apenas cinco minutos. O primeiro passo acontece durante o banho: lavar bem as axilas com sabonete antisséptico ou antibacteriano reduz a população de bactérias causadoras do odor.
Após o banho, secar completamente a pele é fundamental. A umidade facilita a proliferação bacteriana, anulando os efeitos do sabonete. Aplicar o antitranspirante apenas sobre pele completamente seca garante melhor absorção e eficácia prolongada.
A escolha das roupas impacta diretamente no problema. Tecidos sintéticos retêm suor e dificultam a transpiração natural da pele. Algodão e outros materiais que absorvem umidade mantêm a pele mais seca durante o dia. Trocar roupas e meias diariamente parece óbvio, mas faz diferença real no controle do odor.
A depilação ou aparamento dos pelos axilares ajuda a diminuir o acúmulo de bactérias. Pelos facilitam a retenção de suor e resíduos, intensificando o mau cheiro. A remoção não precisa ser total — aparar com máquina já reduz significativamente o problema.
O último passo envolve atenção à alimentação. Alimentos ricos em compostos sulfurados como alho, cebola e curry contêm moléculas voláteis que, após a digestão, são liberadas através do suor. O consumo de álcool também intensifica o odor corporal.
Quando procurar ajuda profissional
Apesar de 80% dos casos responderem bem a cuidados básicos de higiene, algumas situações exigem acompanhamento dermatológico. Suor que persiste mesmo em ambientes frios, produção intensa durante o sono ou odor que não melhora com higiene adequada podem indicar hiperidrose secundária, relacionada a problemas metabólicos ou hormonais.
Tratamentos médicos variam desde medicamentos anticolinérgicos até aplicação de toxina botulínica. O Botox bloqueia temporariamente os sinais nervosos para as glândulas sudoríparas, com efeitos que duram de 6 a 10 meses. Procedimentos mais invasivos como iontoforese ou simpatectomia endoscópica ficam reservados para casos graves que não respondem a outras abordagens.
Tecnologias recentes como o miraDry utilizam energia térmica para destruir permanentemente as glândulas sudoríparas e odoríferas nas axilas. Aprovado pela FDA, o procedimento não invasivo mostra resultados logo após a primeira sessão. Alternativas naturais também existem: chá de sálvia, consumido 2 a 3 vezes ao dia, possui propriedades anticolinérgicas reconhecidas cientificamente.
Impacto além do físico
O constrangimento causado pelo odor corporal vai muito além do desconforto físico. Pesquisas revelam que pessoas com bromidrose desenvolvem comportamentos compulsivos como tomar vários banhos diários, trocar de roupa incessantemente e aplicar desodorantes de forma exagerada na esperança de mascarar o problema.
O estado de hipervigilância constante sobre o próprio odor gera ansiedade e baixa autoestima. Muitos evitam atividades em grupo, relacionamentos íntimos e até oportunidades profissionais. O isolamento social resultante cria um ciclo de constrangimento e solidão que compromete seriamente a qualidade de vida.
Reconhecer o problema como uma condição médica tratável, não como falha de caráter ou descuido com higiene, representa o primeiro passo para desmantelar o estigma. Produtos especializados e orientação profissional adequada permitem que a maioria das pessoas recupere a confiança e viva sem essa preocupação constante.
Mercado em expansão
O Brasil ocupa a terceira posição mundial em consumo de produtos de beleza, sendo o segundo em produtos masculinos, segundo a ABIHPEC. O mercado de cuidados pessoais masculinos tem previsão de crescimento de 6,39% até 2030, refletindo uma demanda real por soluções específicas.
A tendência aponta para maior segmentação e personalização de produtos. Fórmulas multifuncionais que economizam tempo ganharam popularidade entre consumidores modernos. Shampoos 2 em 1, sabonetes para corpo e rosto, produtos de rápida absorção atendem a rotina corrida sem comprometer resultados.
Para Gabriel Rezende, o grooming masculino transcende a estética: "Trata-se de um conjunto de práticas diárias com produtos e técnicas específicas para manter o cabelo e a barba alinhados ao estilo pessoal e às necessidades de cada um". A prática regular proporciona benefícios a longo prazo, incluindo prevenção de sinais de envelhecimento e redução de problemas como acne e pelos encravados.
Produtos naturais e sustentáveis crescem em preferência. A conscientização sobre ingredientes e impacto ambiental influencia as escolhas de consumo. Marcas que aliam eficácia a compromissos éticos conquistam espaço significativo no mercado brasileiro.
Cuidar de si deixou de ser tabu. A mudança cultural permite que homens invistam em autocuidado sem julgamentos, transformando práticas antes vistas como exclusivamente femininas em hábitos essenciais de saúde e bem-estar para todos.

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