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Por que Janeiro, Março e Setembro têm esses nomes? A história secreta do calendário

Descubra os fascinantes segredos por trás dos nomes dos meses do ano. Uma viagem através da Roma Antiga que revelará como deuses, imperadores e tradições milenares moldaram nosso calendário atual.
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Você já se perguntou por que nossos meses têm nomes tão diferentes? Por que janeiro não se chama "primeiro mês" e dezembro não é "último mês"? A resposta está enterrada nas ruínas da Roma Antiga, onde deuses poderosos, imperadores ambiciosos e tradições milenares moldaram o que hoje conhecemos como calendário gregoriano.

A história dos nomes dos meses é uma fascinante jornada através de reformas políticas, crenças religiosas e mudanças sociais que atravessaram mais de dois mil anos. Cada mês carrega em seu nome uma herança cultural que conecta nossa vida moderna às tradições de uma das civilizações mais influentes da humanidade.

Por que Janeiro, Março e Setembro têm esses nomes? A história secreta do calendário
Créditos: Redação

Do Caos à Ordem: A Origem do Calendário Romano

O primeiro calendário romano era uma bagunça astronômica. Criado por Rômulo em 753 a.C., tinha apenas dez meses e 304 dias, começando em março. Os meses de inverno simplesmente não existiam no calendário - eram considerados um período morto sem importância para a sociedade agrícola da época.

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Essa divisão inicial seguia um padrão interessante: seis meses tinham 30 dias e quatro tinham 31 dias. Os primeiros quatro meses homenageavam divindades importantes, enquanto os últimos seis recebiam nomes numerais simples em latim. Martius (março), Aprilis (abril), Maius (maio) e Junius (junho) precediam Quintilis, Sextilis, September, October, November e December.

A mudança veio com Numa Pompílio, o segundo rei de Roma, por volta de 700 a.C. Ele adicionou janeiro e fevereiro ao calendário, criando um sistema de 12 meses com 355 dias. Essa reforma não apenas organizou melhor o tempo, mas também refletiu a crescente importância dos rituais religiosos na vida romana.

O sistema ainda era imperfeito. Para manter o calendário alinhado com as estações, os romanos ocasionalmente inseriam um mês extra chamado Mercedônio, com 22 ou 23 dias. Porém, essa decisão ficava nas mãos dos pontífices, que muitas vezes a usavam para beneficiar aliados políticos, prolongando ou encurtando mandatos conforme seus interesses.

A Revolução de Júlio César

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Em 46 a.C., a situação havia se tornado insustentável. O calendário estava três meses atrasado em relação às estações reais. Júlio César, recém-chegado ao poder, decidiu acabar com a confusão de uma vez por todas. Com a ajuda do astrônomo grego Sosígenes, emprestado de Cleópatra, ele implementou uma reforma radical.

O ano de 46 a.C. ficou conhecido como "Ano da Confusão" - teve incríveis 445 dias para realinhar o calendário com as estações. César adicionou dois meses extras àquele ano, além do Mercedônio regular. Foi o ano mais longo da história registrada.

A partir de 45 a.C., entrou em vigor o calendário juliano, baseado no ciclo solar de 365,25 dias. O sistema estabelecia três anos comuns de 365 dias seguidos por um ano bissexto de 366 dias. Era uma melhoria monumental que mantinha o calendário sincronizado com as estações por séculos.

Além da precisão astronômica, a reforma de César padronizou a duração dos meses. Janeiro, março, maio, julho, agosto, outubro e dezembro ficaram com 31 dias. Abril, junho, setembro e novembro receberam 30 dias. Fevereiro, considerado um mês de mau agouro, ficou com apenas 28 dias (29 em anos bissextos).

Os Deuses Que Nomearam o Tempo

Janeiro recebeu seu nome de Janus, uma das divindades mais fascinantes do panteão romano. Representado com duas faces olhando em direções opostas, Janus era o deus das transições, portas e começos. Uma face observava o passado, a outra contemplava o futuro - simbolismo perfeito para o primeiro mês do ano.

Os romanos consideravam Janus o guardião das passagens temporais. Nos primeiros dias de janeiro, ofereciam mel, bolos e moedas ao deus, pedindo proteção e prosperidade para o ano que começava. Era costume deixar as portas das casas abertas durante as celebrações, simbolizando receptividade às bênçãos divinas.

Março homenageava Marte, inicialmente deus da agricultura e fertilidade, depois transformado em divindade da guerra. No calendário original de dez meses, março era o primeiro mês do ano - período em que os campos despertavam da dormência invernal e os exércitos retomavam suas campanhas após a pausa do frio.

A escolha de Marte para nomear o primeiro mês refletia a importância dual da guerra e agricultura na sociedade romana primitiva. Era o momento de semear os campos e preparar as armas, atividades essenciais para a sobrevivência e expansão de Roma. Mesmo após as reformas, março manteve seu prestígio como símbolo de renovação e força.

Fevereiro: O Mês da Purificação

Fevereiro tem origem nas Februa, festivais de purificação realizados no final do ano romano antigo. A palavra deriva de "februare", verbo arcaico que significa "purificar" ou "expiar". Durante essas cerimônias, os romanos ofereciam sacrifícios aos deuses dos mortos, buscando perdão pelas faltas cometidas no ano anterior.

O mês era dedicado a Februus, deus etrusco da purificação e dos mortos. Os rituais incluíam limpezas espirituais, oferendas de animais e cerimônias expiatórias. Mulheres participavam das Lupercálias, festivais de fertilidade que ocorriam em meados de fevereiro, onde jovens romanos corriam pelas ruas chicoteando passantes com tiras de couro para garantir prosperidade.

Originalmente, fevereiro tinha 28 dias por ser considerado um período nefasto - os romanos acreditavam que números pares traziam azar. Como último mês do calendário antigo, concentrava todas as superstições negativas. Mesmo após as reformas que o reposicionaram, fevereiro manteve sua duração reduzida.

A tradição de associar fevereiro à purificação sobreviveu através dos séculos. Muitas culturas ainda consideram o final do inverno um período propício para limpezas físicas e espirituais, preparando-se para o renascimento da primavera.

Entre Deuses e Imperadores: Maio a Agosto

Maio deriva de Maia, deusa romana da primavera e mãe de Mercúrio. Era considerada protetora do crescimento e da fertilidade, regendo o período de maior florescimento na natureza. Os agricultores romanos dedicavam rituais especiais a Maia durante maio, pedindo proteção para as colheitas emergentes.

Junho homenageia Juno, esposa de Júpiter e rainha dos deuses romanos. Considerada protetora das mulheres, do casamento e da maternidade, Juno tornava junho o mês mais auspicioso para celebrações nupciais. Essa tradição persiste até hoje - junho continua sendo um dos meses preferidos para casamentos no mundo ocidental.

Julho originalmente chamava-se Quintilis (quinto mês). Em 44 a.C., após o assassinato de Júlio César, o Senado romano renomeou o mês em sua homenagem. A escolha não foi aleatória - César nasceu em julho, e suas principais vitórias militares ocorreram durante esse período. Era uma forma de eternizar sua memória no calendário.

Agosto seguiu caminho similar. Chamado Sextilis (sexto mês), foi rebatizado em honra ao imperador Augusto em 8 a.C. Para que o mês de Augusto não tivesse menos prestígio que o de César, os romanos aumentaram agosto de 30 para 31 dias, retirando um dia de fevereiro. Essa mudança criou a distribuição irregular de dias que usamos até hoje.

Os Números Que Viraram Nomes

Setembro, outubro, novembro e dezembro mantiveram seus nomes numerais originais, mesmo após as reformas que alteraram suas posições no calendário. Setembro deriva de "septem" (sete), outubro de "octo" (oito), novembro de "novem" (nove) e dezembro de "decem" (dez).

Essa aparente incoerência - setembro é o nono mês, não o sétimo - resulta da inserção de janeiro e fevereiro no início do calendário. Quando Numa Pompílio adicionou esses dois meses, os antigos sétimo, oitavo, nono e décimo meses tornaram-se nono, décimo, décimo primeiro e décimo segundo, mas conservaram seus nomes tradicionais.

Houve tentativas de alterar esses nomes. O imperador Cômodo chegou a renomear setembro temporariamente, chamando-o de "Herculeus" em homenagem a Hércules. O Senado propôs a Tibério renomear outubro como "Livius", homenageando sua mãe Lívia. Ambas as mudanças foram rejeitadas ou rapidamente revertidas.

A persistência dos nomes numerais demonstra o conservadorismo romano em questões tradicionais. Mesmo imperadores poderosos encontraram resistência ao tentar alterar denominações com as quais o povo já estava familiarizado. Essa estabilidade permitiu que chegassem até nós praticamente inalterados por mais de dois mil anos.


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