Crescimento de 63%. Esse é o salto registrado nas séries documentais de true crime entre janeiro de 2018 e março de 2021, segundo relatório da Parrot Analytics. O número reflete um fenômeno global que encontrou terreno fértil no Brasil, onde produções nacionais sobre crimes reais têm quebrado recordes de audiência e dominado conversas nas redes sociais.
O lançamento da série Tremembé, no Prime Video, em outubro de 2025, consolidou o apetite brasileiro por esse tipo de conteúdo. A produção, que retrata criminosos notórios como Suzane von Richthofen, Elize Matsunaga e os irmãos Cravinhos, tornou-se a série mais assistida da história do Prime Video no Brasil. A plataforma registrou crescimento acima de 50% em novos assinantes desde a semana de lançamento, segundo dados divulgados pelo jornal Folha de São Paulo.
Mas o que explica tamanha atração por histórias repletas de violência e tragédia? A resposta não é simples, mas especialistas apontam diversos fatores psicológicos e sociais por trás do fascínio.

A psicologia por trás do fascínio
André Rizzi, psicólogo e pesquisador da Universidade de São Paulo, identifica a curiosidade mórbida como a principal razão para o interesse por crimes reais. *"O maior motivo que leva as pessoas a consumirem esse tipo de conteúdo é tentar entender a mente dos criminosos, a psicologia do que leva alguém a cometer um crime, o que é o bem e o mal"*, afirmou em entrevista à revista Exame.
Marina Pinheiro, professora do departamento de Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco, acrescenta outro elemento importante. *"Assistir a essas séries e filmes é uma forma de elaboração dos nossos próprios fantasmas, numa distância segura. Isso gera uma vivência que permite a coexistência do horror e do deleite"*, declarou ao portal Folha PE.
A psicóloga Julia Arnaud, pós-graduanda em Neuropsicologia e Terapia Cognitivo-Comportamental, explica que esse interesse tem origem neurobiológica. Segundo ela, histórias de true crime despertam emoções como medo, curiosidade e indignação, todas ligadas ao instinto de sobrevivência. A exposição a essas narrativas ativa regiões cerebrais relacionadas à vigilância e à antecipação de perigo.
Por que as mulheres são maioria na audiência
Um dos aspectos mais intrigantes do fenômeno é a predominância feminina entre os consumidores. Um estudo realizado em 2025 pela Universidade de Graz, na Áustria, revelou que o público de true crime é majoritariamente feminino, representando entre 70% e 93% dos espectadores. No Brasil, podcasts como Modus Operandi têm mais de 70% de sua audiência composta por mulheres, segundo pesquisa da Civic Science.
A explicação para essa preferência está em um conceito da psicologia chamado regulação emocional. Rizzi explica que, para mulheres, consumir conteúdos sobre crimes reais funciona como uma forma de habituação com a violência que ajuda a regular emoções sobre essa temática. *"É o que chamamos de vigilância defensiva, quase um mecanismo de autopreservação. É como se fosse um treino mental inconsciente para identificar perigos, reconhecer perfis de agressores e evitar situações de risco"*, afirma.
Em um país onde os índices de violência contra a mulher são elevados, essa busca por conhecimento ganha contornos práticos. Muitas consumidoras procuram aprender estratégias reais de proteção, reconhecer sinais de alerta e entender padrões comportamentais de criminosos.
O boom das plataformas de streaming
A explosão do true crime está diretamente ligada ao crescimento das plataformas de streaming. No Brasil, o Prime Video alcançou 21% de participação no mercado no terceiro trimestre de 2025, ultrapassando a Netflix pela primeira vez, segundo dados da JustWatch. A Netflix mantém 20% de participação, enquanto Disney+ ocupa a terceira posição com 18%.
As plataformas têm investido pesadamente no gênero. Entre janeiro de 2018 e março de 2021, as séries documentais registraram aumento de 63%, sendo o true crime o maior subgênero dessa categoria. O relatório da Parrot Analytics revelou ainda que, em 2023, o Brasil correspondeu por metade de toda a demanda por histórias de crimes reais na América Latina.
A Netflix e a Max detêm juntas 60% da oferta de true crime disponível no mercado, mas a demanda continua muito maior do que essas duas plataformas conseguem atender, segundo a Parrot Analytics.
Casos brasileiros que viraram fenômeno
Além de Tremembé, outras produções nacionais sobre crimes reais conquistaram o público brasileiro nos últimos anos. O podcast A Mulher da Casa Abandonada, lançado em 2022 por Chico Fellicci, bateu recordes com sete milhões de downloads. A história de Margarida Bonetti, foragida do FBI que vivia em um casarão deteriorado no bairro de Higienópolis, em São Paulo, mobilizou milhares de pessoas a visitarem o local, que chegou a sofrer vandalismo e tiros após o sucesso da produção.
Em março de 2025, a HBO lançou Bateau Mouche: O Naufrágio da Justiça, série documental que retrata uma das maiores tragédias marítimas do Brasil, ocorrida na noite de Réveillon de 1988, no Rio de Janeiro. A produção conta com depoimentos de Fátima Bernardes, Malu Mader e familiares das 55 vítimas do naufrágio.
O podcast Modus Operandi, comandado por Carol Moreira e Mabê Bonafé desde 2020, consolidou-se como referência nacional ao abordar casos reais e serial killers por meio de narrativas envolventes e discussões sobre psicologia criminal.
Questões éticas e impacto social
Apesar do sucesso, o gênero levanta debates importantes sobre os limites da dramatização e a espetacularização da violência. Para evitar processos judiciais, a Amazon montou um núcleo jurídico especializado que acompanhou todo o desenvolvimento do roteiro de Tremembé, orientando os roteiristas sobre limites legais e narrativos.
Amanda Melo, perita criminal da Polícia Civil da Paraíba, reconhece que as séries documentais dão visibilidade ao trabalho dos investigadores, mas alerta para a necessidade de cautela. Cristina Kaipper, professora do curso de Psicologia da Unijorge, observa que essas produções quase sempre reforçam uma visão punitivista. *"Poucos programas abordam condenações injustas ou a luta para provar a inocência de alguém. O foco quase sempre está na punição"*, pondera.
Julia Arnaud também alerta para os riscos do consumo excessivo. *"Esse tipo de conteúdo pode intensificar sentimentos de medo, angústia e desconfiança, principalmente em pessoas com tendência à ansiedade ou pensamento catastrófico"*, afirma. O exagero pode reforçar a percepção de que o mundo é extremamente perigoso, levando à hipervigilância constante, até em situações cotidianas sem ameaça real.
O futuro do true crime no Brasil
Com o sucesso comprovado e a alta demanda que supera a oferta disponível nos catálogos, o mercado de streaming demonstra movimento claro de priorizar a produção de conteúdo criminal com foco no contexto nacional. A exploração de figuras controversas e midiáticas garante visibilidade, mas também exige responsabilidade na abordagem das histórias.
Um estudo conduzido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2023 identificou que o público do true crime busca, além do entretenimento, compreender padrões sociais e motivações psicológicas associadas aos crimes. A convergência entre análise detalhada e relatos reais torna o gênero um recurso de informação e reflexão, mantendo a demanda constante nas plataformas digitais.
Enquanto o crime permanecer como temática recorrente no cotidiano e nos noticiários brasileiros, a tendência é que as séries nacionais sobre o tema mantenham seu apelo. Resta ao público consumir de forma consciente, equilibrando a curiosidade natural com o cuidado com a própria saúde mental.

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