A tecnologia que promete facilitar a vida virou arma nas mãos de criminosos. Golpes aplicados com inteligência artificial dispararam no Brasil nos últimos meses, segundo dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Apenas em 2024, o setor financeiro registrou aumento de 340% nas tentativas de fraude envolvendo clonagem de voz e manipulação de imagens.
O modus operandi é cruel: golpistas criam áudios e vídeos hiper-realistas de familiares pedindo dinheiro em situações de emergência. A técnica, conhecida como deepfake, já enganou milhares de brasileiros que transferiram valores acreditando ajudar pessoas próximas em apuros.
Maria Helena Santos, aposentada de 67 anos, perdeu R$ 8.500 em um golpe desse tipo. Ela recebeu um áudio via WhatsApp de quem parecia ser seu filho, dizendo estar em uma delegacia após um acidente. "A voz era idêntica. Ele até usou apelidos que só a família conhece", relatou ao portal G1.

Como funcionam os golpes com inteligência artificial
Especialistas em segurança digital explicam que a tecnologia de clonagem de voz evoluiu drasticamente. Hoje, bastam poucos segundos de áudio — facilmente obtidos em stories de Instagram ou vídeos no TikTok — para que softwares criem falas convincentes.
O processo é rápido e assustadoramente acessível. Ferramentas gratuitas disponíveis na internet permitem que qualquer pessoa treinada clone uma voz em menos de 10 minutos. Os criminosos combinam essa tecnologia com engenharia social, criando narrativas urgentes que exploram o medo e a preocupação das vítimas.
Segundo a Polícia Federal, os golpistas seguem um roteiro específico:
- Coletam amostras de voz e fotos das redes sociais da vítima
- Utilizam aplicativos de IA para gerar conteúdo falso
- Entram em contato com familiares criando situações de emergência
- Pressionam por transferências imediatas antes de qualquer verificação
- Desaparecem após receber o dinheiro, frequentemente usando contas laranjas
Roberto Oliveira, delegado especializado em crimes cibernéticos de São Paulo, alertou em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo: "Esses golpes são extremamente sofisticados. A qualidade dos deepfakes melhorou tanto que mesmo pessoas tecnicamente preparadas têm dificuldade para identificar".
Sinais práticos que denunciam uma deepfake
Apesar do avanço tecnológico, os especialistas garantem que ainda existem falhas detectáveis nas criações artificiais. Conhecer esses indícios pode ser a diferença entre cair no golpe ou proteger seu patrimônio.
No caso dos áudios, a primeira pista está na qualidade sonora. Gravações geradas por IA frequentemente apresentam pequenas pausas não naturais entre palavras ou um tom ligeiramente robotizado. A respiração também costuma ser irregular ou inexistente, algo que dificilmente passa despercebido em conversas mais longas.
Luciana Ferreira, especialista em segurança da informação e professora da USP, compartilhou com o portal Olhar Digital suas observações: "Preste atenção na entonação. A IA ainda tem dificuldade em replicar emoções genuínas. Um áudio de desespero real terá variações naturais que o artificial não consegue reproduzir perfeitamente".
Já nos vídeos deepfake, os sinais são mais visuais. Movimentos labiais descoordenados com a fala, piscadas excessivas ou ausentes, e inconsistências na iluminação do rosto são alertas importantes. A tecnologia também costuma ter problemas com reflexos em óculos e com a renderização de cabelos em movimento.
Outro ponto crítico está no conteúdo da mensagem. Golpistas evitam detalhes específicos que possam ser facilmente verificados. Frases como "estou em apuros" ou "preciso de dinheiro urgente" são propositalmente vagas. Pessoas reais em situações de emergência tendem a fornecer informações concretas sobre localização e circunstâncias.
Casos reais no Brasil acendem alerta
O empresário paulista Fernando Costa vivenciou um susto em outubro de 2024. Recebeu uma ligação de vídeo aparentemente de sua mãe, com imagem tremida e píxeis distorcidos, pedindo R$ 15 mil para quitar uma suposta dívida hospitalar urgente. Desconfiado pela qualidade instável da chamada, ele desligou e telefonou diretamente para a mãe — que estava em casa, sem qualquer problema.
A tentativa de golpe foi registrada no Procon-SP, que viu crescer 280% as denúncias envolvendo clonagem de voz e imagem entre 2023 e 2024. O órgão criou um canal específico para orientação sobre fraudes digitais.
Em Minas Gerais, uma família inteira foi vítima simultaneamente. Os golpistas criaram áudios de três membros diferentes, enviando mensagens para parentes em uma operação coordenada. O prejuízo total ultrapassou R$ 30 mil antes que a fraude fosse descoberta.
A Febraban registrou que 62% das tentativas de golpe com IA ocorrem via WhatsApp, seguido por Telegram (23%) e chamadas telefônicas diretas (15%). O perfil mais visado são pessoas acima de 50 anos, segundo levantamento da instituição.
Proteção efetiva contra fraudes digitais
Diante desse cenário, especialistas em cibersegurança recomendam medidas preventivas simples, mas altamente eficazes. A principal orientação é universal: jamais transfira dinheiro baseando-se exclusivamente em mensagens de áudio, texto ou vídeo.
A confirmação deve sempre ocorrer por ligação telefônica direta para o número conhecido do familiar, preferencialmente o celular que você já tem salvo. Evite retornar chamadas para números novos fornecidos na mensagem suspeita — eles podem estar sob controle dos criminosos.
Outra estratégia comprovadamente eficaz é estabelecer "palavras-código" com familiares próximos. Trata-se de termos ou frases secretas que só o círculo familiar conhece, servindo como autenticação em situações de emergência. Essa prática, comum em protocolos de segurança corporativa, está sendo adaptada para o ambiente doméstico.
A privacidade nas redes sociais também merece atenção redobrada. Limitar quem pode ver seus vídeos e stories reduz drasticamente o material disponível para clonagem. Configurações de perfil privado, embora pareçam restritivas, são barreiras importantes contra a coleta de dados pessoais.
Carlos Eduardo Martins, coordenador de crimes digitais da Polícia Civil do Rio de Janeiro, reforçou ao jornal O Globo: "Nunca compartilhe códigos de verificação recebidos por SMS. Golpistas podem usar essas informações para acessar suas contas e coletar mais material para deepfakes".
Instituições financeiras também aprimoraram suas defesas. Bancos como Bradesco, Itaú e Santander implementaram sistemas de autenticação biométrica que dificultam transferências fraudulentas, mesmo quando o golpista consegue dados da vítima.
Onde denunciar e buscar ajuda
Caso você identifique uma tentativa de golpe ou seja vítima de fraude envolvendo inteligência artificial, a denúncia pode ser feita através do site do Procon de seu estado, da Delegacia de Crimes Cibernéticos mais próxima, ou pelo canal 190 da Polícia Militar em situações de urgência.
A Safernet Brasil, ONG especializada em crimes digitais, disponibiliza orientação gratuita através do site helpline.org.br. O serviço funciona 24 horas e ajuda vítimas a tomar as providências adequadas após golpes.
Bancos devem ser comunicados imediatamente em casos de transferências suspeitas. Instituições financeiras possuem prazos de até 24 horas para tentar bloquear transações fraudulentas, aumentando as chances de recuperação dos valores.
O Ministério Público Federal também criou uma força-tarefa específica para combater crimes com uso de inteligência artificial, recebendo denúncias pelo site mpf.mp.br. A iniciativa visa rastrear quadrilhas especializadas nesse tipo de fraude.

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