Por décadas, a rotina de quem precisava de uma informação era sempre a mesma: abrir o Google, digitar algumas palavras-chave e navegar pelos links que apareciam. Esse comportamento moldou gerações e tornou o buscador mais famoso do mundo quase sinônimo de "pesquisar na internet". Mas algo está mudando — e rápido. A inteligência artificial generativa chegou para reorganizar completamente essa lógica.
Ferramentas como o ChatGPT, o Gemini e outros assistentes baseados em IA já fazem parte do cotidiano de milhões de brasileiros. Em vez de uma lista de links, essas plataformas entregam respostas diretas, contextualizadas e em linguagem natural. Não é mais preciso clicar em dez páginas diferentes para montar um raciocínio: a IA faz isso por você.

O Google não está mais sozinho
Durante muitos anos, o Google dominou o mercado de buscas de forma praticamente absoluta. Mas dados recentes mostram que esse domínio começa a apresentar rachaduras. Pela primeira vez em uma década, a participação do Google no mercado de buscas caiu para menos de 90%, segundo levantamento da OneLittleWeb divulgado pelo portal Lifewire.
O avanço dos buscadores alternativos ao Google e, principalmente, das ferramentas de IA generativa, explica boa parte dessa mudança. O uso de chatbots de IA cresceu quase 81% em um único ano. Ainda assim, em volume absoluto, as IAs ainda representam cerca de 3% do tráfego total em comparação com os buscadores tradicionais. O cenário está em transformação, mas ainda longe de uma virada definitiva.
Entre os mais jovens, a mudança é ainda mais perceptível. Uma pesquisa da YPulse revelou que apenas 46% dos brasileiros entre 18 e 24 anos usam o Google como ponto de partida nas buscas. O TikTok já é a primeira opção para 21% dessa faixa etária, enquanto assistentes de IA ganham espaço crescente como ferramenta de consulta diária.
ChatGPT: a busca que conversa com você
O ChatGPT foi o grande responsável por popularizar a ideia de que buscar informações pode ser uma conversa. Em vez de palavras soltas, o usuário faz perguntas completas e recebe respostas elaboradas, com contexto, exemplos e até sugestões de próximos passos. Isso mudou a expectativa de milhões de pessoas sobre o que uma "pesquisa" deve entregar.
O Brasil ocupa a terceira posição mundial em número de usuários do ChatGPT, com mais de 140 milhões de mensagens enviadas diariamente por brasileiros, segundo dados da Fast Company Brasil. Esse número reflete não apenas curiosidade tecnológica, mas uma mudança real de comportamento: as pessoas estão deixando de "googlitar" para começar a "perguntar para a IA".
A lógica é diferente da busca tradicional. No Google, o usuário precisa saber como formular a pergunta certa para obter links relevantes. Com a IA generativa, a pergunta pode ser longa, ambígua ou cheia de condições — e a ferramenta ainda assim entrega uma resposta útil. Para muitos usuários, isso representa uma virada de chave.
O Modo IA do Google chega ao Brasil
O próprio Google percebeu o movimento e reagiu. Em setembro de 2025, a empresa lançou oficialmente o Modo IA no Brasil, uma nova aba nos resultados de pesquisa baseada no modelo Gemini 2.5. A ferramenta usa uma técnica chamada "query fan-out": ao receber uma pergunta, ela divide a consulta em subtópicos e realiza múltiplas buscas simultâneas antes de compilar uma resposta completa.
Na prática, isso significa que perguntas complexas — como planejar uma viagem com restrições específicas ou comparar produtos com múltiplas variáveis — passam a ter uma resposta direta, sem que o usuário precise abrir dezenas de abas. Segundo o Google, as perguntas feitas no Modo IA são, em média, duas a três vezes mais longas do que as buscas tradicionais, o que indica que os usuários já estão explorando novas formas de interação.
A chegada do Modo IA ao Brasil também gerou preocupação entre criadores de conteúdo e veículos de comunicação. Como a ferramenta entrega respostas sem necessariamente direcionar o usuário para sites externos, os cliques em páginas da web caíram cerca de 30% nos mercados onde o recurso já estava ativo anteriormente. Grandes jornais internacionais, como o New York Times, registraram quedas significativas no tráfego orgânico.
Como os brasileiros estão usando a IA para pesquisar
Uma pesquisa realizada pela MLabs em parceria com a Conversion, ouvindo 800 brasileiros de diversas faixas etárias, traçou um retrato detalhado do novo comportamento de busca no país. Os dados mostram que 48,5% dos entrevistados já usam ferramentas de IA para buscar informações sobre produtos e serviços — um número que surpreende pela velocidade da adoção.
Entre os mais jovens, o comportamento é ainda mais híbrido. A geração Z tende a usar o Instagram para descobrir novidades, o Google para confirmar informações factuais e a IA para análises comparativas e contextuais. Já a geração X (43 a 58 anos) mantém o Google como principal ferramenta, mas 47,5% desse grupo já incorporou a IA em algum momento das pesquisas.
- 76% dos brasileiros ainda usam o Google como principal canal de descoberta
- 48,5% já recorrem a IAs para buscar informações sobre marcas e produtos
- 41,5% da geração Z acredita que a IA vai revolucionar completamente a forma de consumir
- 21% dos jovens entre 18 e 24 anos preferem começar buscas pelo TikTok
- O uso de chatbots de IA cresceu quase 81% em um único ano no Brasil
O que muda para quem usa a internet no dia a dia
Para o usuário comum, a mudança mais imediata é a expectativa. Quem já se acostumou com as respostas diretas da IA generativa começa a sentir os resultados tradicionais do Google como lentos ou incompletos. É um fenômeno parecido com o que aconteceu quando os smartphones chegaram: depois de usar uma tela touchscreen, voltar para os botões físicos parece um retrocesso.
Outro impacto prático é na forma como as perguntas são feitas. Com a busca tradicional, a tendência era usar termos curtos e genéricos: "preço iPhone", "tempo São Paulo", "receita bolo". Com os assistentes de IA, as consultas ficam mais naturais e detalhadas: "Quero um bolo de chocolate sem glúten para 10 pessoas, fácil de fazer e sem usar batedeira". A diferença é enorme — e a IA lida melhor com esse segundo formato.
Para quem trabalha com produção de conteúdo na internet, o cenário exige atenção. O conceito de GEO (Generative Engine Optimization) — uma evolução do SEO tradicional — ganhou força em 2025. A lógica mudou: mais do que ranquear nos resultados do Google, o objetivo agora é ser citado como fonte confiável pelas IAs generativas. Marcas que não constroem essa autoridade digital correm o risco de simplesmente sumir das respostas.
Privacidade e regulação: o que você precisa saber
Com a expansão das buscas por inteligência artificial, cresce também a preocupação com o uso dos dados dos usuários. Quando você faz uma pergunta para um assistente de IA, essa interação pode ser usada para treinar modelos, personalizar respostas futuras e até alimentar perfis de comportamento. No Brasil, a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) garante direitos importantes nesse processo.
A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) tem acompanhado de perto o avanço das tecnologias de IA e seus impactos sobre a privacidade dos brasileiros. Usuários têm o direito de saber como seus dados são utilizados, solicitar a exclusão de informações e optar por não participar de determinados tratamentos de dados. Antes de usar qualquer ferramenta de IA, vale a pena ler os termos de uso e entender o que está sendo compartilhado.
Outro ponto importante é a qualidade das informações fornecidas pelas IAs. Ferramentas generativas podem cometer erros, inventar fontes ou apresentar informações desatualizadas com a mesma confiança com que entregam dados corretos. Por isso, para decisões importantes — de saúde, financeiras ou legais — o ideal é sempre confirmar as respostas da IA em fontes especializadas e reconhecidas.
A transformação das buscas online está em curso e não há como ignorá-la. A IA generativa não vai substituir o Google da noite para o dia, mas já está mudando o comportamento de milhões de brasileiros. Quem se adaptar mais rápido a essa nova forma de buscar, questionar e filtrar informações sairá na frente — seja como usuário, criador de conteúdo ou empresa.

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