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Vitamina D: Quem precisa, como dosar e quando suplementar

Especialistas explicam paradoxo: clima ensolarado não garante níveis adequados. Conheça sintomas e orientações para suplementação.
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Direto ao Ponto:

  • Estudo da Fiocruz revela que 66% da população adulta apresenta níveis inadequados da vitamina
  • Entre idosos, o problema atinge mais de 70% dos brasileiros acima de 60 anos
  • Principais causas incluem rotina em ambientes fechados e uso excessivo de protetor solar
  • Suplementação recomendada varia entre 400 e 800 UI diárias para população geral
  • Exame de sangue identifica deficiência antes de iniciar tratamento adequado

Um paradoxo preocupa especialistas em saúde pública no Brasil. Mesmo vivendo em um país tropical, onde o sol brilha praticamente o ano todo, mais da metade da população adulta enfrenta deficiência ou insuficiência de vitamina D. A constatação vem de um estudo pioneiro da Fiocruz, publicado no Journal of the Endocrine Society, que avaliou brasileiros saudáveis em três capitais: Salvador, São Paulo e Curitiba.

A pesquisa, coordenada pelo cientista Edson Moreira entre dezembro de 2020 e março de 2021, identificou que 15,3% dos participantes apresentavam deficiência da vitamina, enquanto 50,9% tinham insuficiência. Somados, os números revelam que dois terços dos brasileiros não conseguem manter níveis adequados dessa substância essencial para a saúde óssea e imunológica.

São Paulo registrou a maior taxa de deficiência, com 20,5% da população estudada apresentando níveis críticos. Curitiba ficou em segundo lugar, com 12,7%, seguida por Salvador, com 12,1%. O cenário piora durante o inverno nas regiões Sul e Sudeste, quando os níveis podem cair até 30% em relação aos meses mais quentes.

Vitamina D: Quem precisa, como dosar e quando suplementar
Créditos: Freepik

O estilo de vida moderno rouba o sol dos brasileiros

A endocrinologista Jacqueline Kalil, em entrevista ao Jornal Correio, aponta que o comportamento urbano explica boa parte do problema. *"O uso diário de protetor solar, muitas vezes presente inclusive em maquiagens, o uso de roupas compridas e muitas vezes com proteção UVB, trabalho em ambientes fechados e estilo de vida corrido que atrapalha a regularidade da exposição solar"*, enumera a especialista.

A urbanização acelerada criou um ambiente hostil à produção natural de vitamina D. Prédios altos projetam sombras constantes nas ruas, escritórios com ar-condicionado mantêm profissionais confinados por oito horas ou mais, e a correria diária impede momentos de exposição solar adequada. Mesmo nos horários recomendados pelos médicos, entre 10h e 16h, poucas pessoas conseguem dedicar 10 a 20 minutos diários ao sol.

A alimentação brasileira também contribui para o déficit. Segundo a Fiocruz, o país não possui política de fortificação de alimentos com vitamina D, ao contrário de nações como Canadá e Finlândia. Além disso, peixes gordurosos como salmão, sardinha e atum, principais fontes alimentares da vitamina, raramente fazem parte das refeições cotidianas da maioria da população.

Idosos são os mais vulneráveis ao problema

A situação se agrava entre pessoas acima de 60 anos. Uma análise publicada em 2025 na revista Ciência & Saúde Coletiva, que reuniu dados de 26 pesquisas com 9.606 idosos de várias regiões do país, revelou números alarmantes: 34,2% têm deficiência (níveis abaixo de 20 ng/mL) e 35,2% apresentam insuficiência (entre 20 e 30 ng/mL).

Para essa faixa etária, as consequências vão muito além da saúde óssea. A deficiência aumenta o risco de quedas e fraturas, condições que podem levar à perda de autonomia e qualidade de vida. Os principais fatores que explicam o problema entre idosos incluem a redução natural da exposição solar devido a limitações físicas, rotina predominantemente dentro de casa e alterações metabólicas próprias do envelhecimento, que dificultam a síntese e ativação da vitamina pelo organismo.

Sintomas silenciosos podem passar despercebidos

Na maioria dos casos, a deficiência de vitamina D não apresenta sintomas evidentes, especialmente nos estágios iniciais. Quando surgem, as manifestações costumam ser sutis e confundidas com outras condições. Cansaço persistente, dores musculares, fraqueza óssea, infecções frequentes e dificuldade de concentração estão entre os sinais mais comuns.

Estudos recentes associam a falta da vitamina a problemas que vão além do sistema musculoesquelético. Uma pesquisa publicada em julho de 2022 no periódico Critical Reviews In Food Science and Nutrition, que revisou 41 estudos científicos, encontrou indícios de que a suplementação de vitamina D pode trazer benefícios para pacientes com sintomas de depressão. A substância também está relacionada à proteção das funções cerebrais, com trabalhos da Universidade de Queensland, na Austrália, sugerindo que níveis baixos podem comprometer regiões do cérebro ligadas à memória e elevar o risco de Alzheimer.

Durante a pandemia de Covid-19, a importância de manter níveis adequados da vitamina ficou ainda mais evidente. Pesquisas mostraram correlação entre deficiência de vitamina D e maior vulnerabilidade a infecções, fortalecendo o argumento de que a substância desempenha papel fundamental na regulação do sistema imunológico.

Como identificar e tratar a deficiência

O diagnóstico da deficiência é feito por meio do exame de sangue 25-hidroxivitamina D, ou 25(OH)D, que mede a quantidade da vitamina armazenada no organismo após passar pelo fígado. Diretrizes médicas consideram deficiência quando os níveis ficam abaixo de 20 ng/mL, e insuficiência entre 20 e 30 ng/mL. Valores ideais situam-se na faixa de 30 a 50 ng/mL, segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia.

A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia recomenda doses diárias específicas conforme a idade. Para bebês até 12 meses, a orientação é de 400 UI diárias. Crianças a partir de 1 ano e adultos até 70 anos devem consumir 600 UI por dia. Já para pessoas acima de 70 anos, a dose sobe para 800 UI diárias. Gestantes e lactantes necessitam de atenção especial, com doses que variam entre 600 e 2.000 UI conforme avaliação médica individual.

Quando há deficiência comprovada, o tratamento pode envolver doses mais altas durante período determinado. Protocolos comuns incluem 50.000 UI semanais por 8 semanas, ou doses diárias entre 3.000 e 6.000 UI pelo mesmo período. O limite máximo seguro estabelecido por entidades médicas é de 4.000 UI por dia para uso prolongado, acima do qual aumenta o risco de efeitos adversos.

Três pilares para níveis adequados

A melhor estratégia para manter a vitamina D em níveis saudáveis combina três abordagens. A primeira é a exposição solar moderada, de 10 a 20 minutos diários, preferencialmente entre 10h e 16h, quando os raios ultravioleta B são mais intensos. Durante esse período, o uso de protetor solar deve ser dispensado em pequenas áreas do corpo, como braços e pernas, para permitir a síntese da vitamina na pele.

A alimentação representa o segundo pilar. Ovos, especialmente a gema, peixes gordurosos como atum e sardinha, leite fortificado e cogumelos do tipo Portobello são as melhores fontes alimentares. Carnes bovina, suína e de frango também contêm a vitamina, porém em quantidades menores. A inclusão regular desses alimentos no cardápio ajuda a complementar a produção natural do organismo.

O terceiro pilar é a suplementação, sempre orientada por médico ou nutricionista. A vitamina D3, ou colecalciferol, é mais eficaz que a D2 (ergocalciferol) e deve ser consumida próximo às refeições, pois a presença de gordura melhora sua absorção. Suplementos estão disponíveis em farmácias nas formas de cápsulas, gotas e até gomas mastigáveis para crianças.

Grupos de risco exigem atenção especial

Algumas populações apresentam maior vulnerabilidade à deficiência de vitamina D e podem necessitar de acompanhamento médico mais frequente. Pessoas com obesidade precisam de doses até três vezes maiores, pois a vitamina fica retida no tecido adiposo. Indivíduos de pele mais escura também produzem menos vitamina D durante a exposição solar devido à maior concentração de melanina.

Quem utiliza medicamentos que interferem no metabolismo da vitamina, como anticonvulsivantes, corticoides e antirretrovirais, deve realizar dosagens periódicas. O mesmo vale para pessoas com doenças que causam má absorção intestinal, como doença celíaca e doença inflamatória intestinal, e para pacientes que passaram por cirurgia bariátrica.

Instituições de saúde também recomendam atenção especial a pessoas institucionalizadas ou hospitalizadas, que têm exposição solar quase nula. Para esses grupos, a suplementação empírica pode ser iniciada sem necessidade de dosagem prévia, sempre sob supervisão médica.

Excesso também oferece riscos

Embora a deficiência seja muito mais comum, o excesso de vitamina D, chamado de hipervitaminose, também pode causar problemas de saúde. A toxicidade geralmente ocorre apenas com uso incorreto de suplementos, já que a longa exposição solar e o consumo de alimentos ricos na vitamina não causam intoxicação.

Quando os níveis sanguíneos ultrapassam 100 ng/mL, podem surgir sintomas como náuseas, vômitos, aumento da frequência urinária, perda de apetite, fraqueza e prisão de ventre. O excesso também causa desregulação dos níveis de cálcio no organismo, levando à formação de pedras nos rins, calcificação de vasos sanguíneos, arritmias cardíacas e até insuficiência renal. Por isso, a automedicação com doses altas é perigosa e deve ser evitada.

Novas diretrizes da Endocrine Society, publicadas em 2024, desaconselham a dosagem rotineira de vitamina D para a população geral saudável. A recomendação se baseia em evidências de que o rastreamento amplo não melhora a qualidade de vida dos pacientes e pode levar a tratamentos desnecessários. A dosagem deve ser solicitada apenas quando há sintomas sugestivos de deficiência ou em grupos de risco específicos.

A vitamina D continua sendo objeto de pesquisas intensas na comunidade científica. Enquanto sua importância para a saúde óssea e muscular já está bem estabelecida, os efeitos em outras áreas ainda geram debates. O consenso atual é que a melhor abordagem combina prevenção por meio de hábitos saudáveis e tratamento individualizado quando necessário, sempre com acompanhamento profissional adequado.


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