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Superalimentos brasileiros: Açaí, castanha e sabugueiro ganham mercado

Embrapa revela que produção sustentável movimenta milhões e preserva floresta amazônica com cultivo de espécies nativas.
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R$ 130 milhões por ano. Esse é o valor mínimo movimentado apenas pelo extrativismo da castanha-do-pará no Brasil, segundo dados da Embrapa divulgados em 2023. O número impressiona, mas representa apenas uma fração do potencial econômico e nutricional dos superalimentos nativos brasileiros, que vêm ganhando reconhecimento científico internacional por suas propriedades benéficas à saúde.

O conceito de superalimento refere-se a alimentos naturalmente ricos em nutrientes essenciais, antioxidantes e compostos bioativos que promovem benefícios específicos ao organismo. No Brasil, a biodiversidade amazônica e de outros biomas oferece uma variedade impressionante desses alimentos, muitos dos quais fazem parte da cultura alimentar de comunidades tradicionais há séculos.

Superalimentos brasileiros: Açaí, castanha e sabugueiro ganham mercado
Créditos: Redação

Açaí: da Amazônia para o mundo

O açaí tornou-se símbolo dos superalimentos brasileiros no mercado internacional. Nativo da região amazônica, o fruto da palmeira Euterpe oleracea Martius é cultivado principalmente no Pará, estado responsável por 95% da produção nacional. A fruta pequena, de coloração roxa escura, conquistou consumidores em todos os continentes pelos seus reconhecidos benefícios nutricionais.

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Estudos recentes da Universidade Federal de Uberlândia, publicados no International Journal of Cardiovascular Sciences da Sociedade Brasileira de Cardiologia, demonstraram que a antocianina presente no açaí possui potencial para reduzir a hipertensão arterial. O componente contribui para a dilatação das artérias, facilitando a passagem do sangue e diminuindo a tensão dos vasos sanguíneos.

A professora Claudine Diniz, da Universidade Federal do Pará, destaca em artigo científico que a polpa do açaí deve ser consumida sem adição de açúcar, farinha ou outros ingredientes para que suas ações benéficas sejam aproveitadas pelo organismo em totalidade. "O açaí deve ser consumido puro para agir como um suplemento alimentar que protege contra doenças cardiovasculares. A adição de ingredientes como açúcar deixam o alimento hipercalórico, atenuando sua ação benéfica", explica a pesquisadora.

Cem gramas de polpa pura de açaí contêm aproximadamente 73 calorias, 18,4 gramas de carboidratos e menos de 1 grama de gordura e proteína, segundo dados nutricionais oficiais. Além de antioxidantes poderosos, o fruto é fonte de vitamina E, minerais como manganês, cobre, boro e cromo, que contribuem para diversos processos metabólicos essenciais.

Castanha-do-pará: riqueza mineral da Amazônia

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Também conhecida como castanha-do-brasil, a semente da árvore Bertholletia excelsa representa uma das maiores riquezas nutricionais da floresta amazônica. O alimento destaca-se pela altíssima concentração de selênio, mineral essencial que desempenha papel crucial no funcionamento do organismo.

Pesquisadores associam o trabalho do selênio à proteção das células nervosas, o que poderia prevenir o surgimento de doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson. Estudos científicos também demonstram associação positiva entre o consumo adequado de selênio e a prevenção de diversos tipos de câncer, aterosclerose e infertilidade masculina, segundo informações da Fundação Pró-Rim.

A nutricionista Giovanna Agostini, em entrevista à CNN Brasil, ressalta que a castanha-do-pará contém três minerais fundamentais: selênio, magnésio e potássio. Sabina Donadelli, nutricionista clínica especializada em longevidade saudável, complementa que o alimento possui gorduras saudáveis, especialmente ácidos graxos mono e poli-insaturados, além de proteínas, fibras, zinco e vitamina E.

A recomendação de consumo varia entre duas e três castanhas por dia. Uma única castanha-do-pará pode conter de 200 a 400 microgramas de selênio, quantidade suficiente para suprir a necessidade diária de um adulto, que oscila entre 55 e 70 microgramas, conforme recomendações norte-americanas e europeias. Contudo, o excesso pode provocar intoxicação pelo mineral, com sintomas como vômito, diarreia, mal-estar e alterações nas unhas.

Estudos recentes publicados em 2025 no Caderno Pedagógico analisaram os efeitos cardiovasculares do consumo de castanha-do-pará em mulheres com sobrepeso e obesidade. As intervenções variaram entre 8 e 45 gramas por dia durante períodos de até 16 semanas, demonstrando aumento consistente na concentração plasmática de selênio e melhora da atividade antioxidante, com efeitos benéficos sobre biomarcadores inflamatórios e endoteliais.

Sabugueiro: tradição europeia com potencial brasileiro

O sabugueiro da espécie Sambucus nigra é um arbusto nativo da Europa, Ásia e África que foi introduzido no Brasil pelos colonizadores europeus. A planta adaptou-se especialmente bem aos estados do Sul e Sudeste, em regiões serranas com invernos frios e verões moderados.

As propriedades medicinais do sabugueiro são reconhecidas há milênios. Alguns autores atribuem o primeiro registro desta planta como medicinal aos escritos de Hipócrates, há 2.500 anos. Atualmente, seu uso e propriedades são oficialmente reconhecidos pela European Pharmacopoeia e pela Anvisa, estando inclusive listado no Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira.

Pesquisas científicas publicadas no jornal Carbohydrate Polymers demonstram que as bagas de sabugueiro possuem polissacarídeos imunomoduladores, moléculas complexas formadas por açúcares que estimulam as células de defesa do organismo. Artigo de revisão publicado na Revista Bionatura destaca que extratos de sabugueiro são eficazes contra vírus influenza A e B, vírus da imunodeficiência humana, dengue, herpes e coronavírus.

Estudos clínicos com pessoas gripadas constataram que aquelas que tomaram 15 mililitros de xarope de sabugueiro quatro vezes por dia apresentaram melhora dos sintomas em dois a quatro dias, enquanto o grupo controle demorou sete a oito dias para recuperação. As flores da planta são ricas em vitamina C, flavonoides com propriedades antioxidantes e óleos essenciais compostos por ácidos graxos, alcanos e triterpenos.

O mercado internacional do sabugueiro é notoriamente deficitário. Segundo dados de abril de 2024, o quilo de baga fresca e desidratada está na ordem de 0,50 e 3 euros respectivamente, enquanto o quilo da flor pode alcançar entre 5 e 6 euros pagos em Portugal. A procura crescente em todo o mundo representa grande potencial para produção brasileira, especialmente nas regiões serranas do Sul e Sudeste.

Outros tesouros nutricionais brasileiros

O Brasil abriga dezenas de outros superalimentos nativos com propriedades nutricionais excepcionais. O camu-camu, pequeno fruto de casca avermelhada encontrado na Amazônia, é um dos alimentos mais ricos em vitamina C do planeta, superando significativamente a laranja e o limão. Sua concentração de nutrientes o torna ingrediente valioso para a indústria de suplementos e cosméticos.

O cupuaçu, parente do cacau, destaca-se por sua polpa de sabor único e marcante. Rico em antioxidantes como vitaminas C e E, além de flavonoides, o fruto é considerado superalimento devido às suas propriedades nutricionais. A amêndoa do cupuaçu contém grande quantidade de flavonoides antioxidantes, comparável à amêndoa do cacau. A manteiga extraída de sua semente é valioso insumo para a indústria cosmética.

O guaraná, cultivado especialmente na região de Maués no Amazonas, é fonte natural de cafeína com propriedades estimulantes. A fruta buriti, apelidada de "árvore da vida", produz frutos ricos em vitamina A e betacaroteno. O bacuri, a graviola, o murici e dezenas de outros frutos amazônicos completam o vasto repertório de superalimentos nativos brasileiros.

Consumo consciente e sustentabilidade

A valorização dos superalimentos brasileiros vai além dos benefícios nutricionais. A cadeia produtiva da castanha-da-amazônia envolve dezenas de milhares de famílias e movimenta milhões de dólares anualmente, segundo a Embrapa. A produção sustentável desses alimentos contribui para a conservação da floresta amazônica e gera renda para comunidades extrativistas.

Mecanismos de pagamento por serviços ambientais têm se destacado como instrumentos eficazes para valorizar a floresta em pé. O cultivo e extrativismo de superalimentos como açaí, castanha e cupuaçu trazem benefícios adicionais como armazenamento de carbono, regulação do clima e cumprimento de metas estabelecidas em programas governamentais e acordos internacionais.

Especialistas recomendam que o consumo de superalimentos esteja sempre associado à prática de alimentação saudável e equilibrada. A nutricionista Sabina Donadelli sugere incluir os superalimentos em preparações diversificadas: em iogurtes, vitaminas, saladas ou como lanches rápidos. Opções práticas incluem adicionar os alimentos picados em farofas ou em receitas de cookies e granolas caseiras.

A escolha por produtos de qualidade também faz diferença. No caso do açaí, por exemplo, versões em pó liofilizado preservam o valor nutricional, sabor e cor da fruta, mantendo os nutrientes e antioxidantes mais concentrados em comparação com outros processos de desidratação. Para castanha-do-pará, a orientação é consumir o produto in natura ou em preparações que preservem suas propriedades.

O Brasil consolida-se como importante fornecedor global de superalimentos, com produção que alia tradição, ciência e sustentabilidade. O reconhecimento internacional das propriedades nutricionais desses alimentos representa oportunidade econômica significativa para o país, ao mesmo tempo que incentiva a preservação da biodiversidade e a manutenção dos modos de vida tradicionais das populações que dependem da floresta.


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