Mais de 20 milhões de cães e gatos cruzam o território brasileiro todos os anos acompanhando suas famílias em férias e viagens de fim de ano. O número impressionante revela uma tendência consolidada no país: pets deixaram de ficar em casa e passaram a integrar os planos de lazer dos tutores. Mas essa mobilidade crescente exige preparação rigorosa e conhecimento detalhado sobre documentação, custos e regras de transporte.
Dados do Instituto Pet Brasil mostram que a procura por atendimentos veterinários preventivos cresce cerca de 30% nos meses de novembro e dezembro, justamente em função das viagens de fim de ano. O movimento reflete não apenas o aumento do turismo pet friendly, mas também a necessidade de cuidados específicos que vão além de simplesmente colocar o animal na caixa de transporte.

Documentação obrigatória para viagens nacionais
Para circular pelo território brasileiro, tutores precisam apresentar dois documentos fundamentais: atestado sanitário emitido por médico veterinário e carteira de vacinação atualizada. O atestado deve conter dados completos do tutor, características detalhadas do animal, informações sobre a vacina antirrábica e atestado de saúde geral do pet.
O documento precisa ser assinado por profissional com registro ativo no Conselho Regional de Medicina Veterinária e tem validade de até 10 dias antes da data da viagem. Esse prazo curto exige planejamento: se a viagem for longa, será necessário emitir novo atestado para o retorno.
A vacina antirrábica merece atenção especial. Campanhas municipais ou estaduais só geram certificados válidos para viagem se incluírem informações completas: nome comercial da vacina, numeração do lote, data de aplicação e validade. A imunização deve ser aplicada com pelo menos 30 dias de antecedência do embarque.
O Passaporte Animal também é aceito para viagens nacionais e serve como documento único que reúne todas as informações sanitárias necessárias, facilitando o processo para tutores que viajam com frequência.
Novas regras da ANAC para transporte aéreo
Desde 20 de outubro de 2025, está em vigor a Portaria 17.476/SAS da Agência Nacional de Aviação Civil, que padroniza critérios para transporte de animais domésticos em voos nacionais e internacionais. A regulamentação trouxe mudanças importantes para o setor.
A norma classifica os animais em três categorias: animal de estimação (aquele que convive com o tutor em relação de dependência afetiva), animal de suporte emocional (que auxilia tutores com problemas de saúde mental sem ser treinado como cão-guia) e animal de serviço (cão-guia para pessoas com deficiência, única classificação regulamentada por lei no Brasil).
Para a maioria dos tutores que viaja com pets, valem as regras comerciais de cada companhia aérea. As empresas mantêm autonomia para decidir espécie aceita, limite de peso, tamanho da caixa de transporte, preço e quantidade de animais por voo. O Superior Tribunal de Justiça confirmou recentemente que as companhias não são obrigadas a aceitar animais nas cabines, exceto cães-guia.
A regulamentação também estabelece diretrizes mais claras sobre responsabilidade civil das empresas em caso de falhas operacionais ou danos ao animal durante o transporte. O comandante da aeronave deve ser notificado sobre a presença de animais vivos a bordo, e há maior rigor na fiscalização da climatização e ventilação do porão.
Custos detalhados por companhia aérea
Os valores para transporte de pets em voos nacionais variam significativamente entre as companhias. Na Azul, o serviço Dog&Cat Cabine custa R$ 250 em voos nacionais antes do check-in e R$ 300 durante o período de check-in. Para voos internacionais, a taxa sobe para R$ 600 antes do check-in e R$ 650 durante. A companhia transporta apenas animais na cabine, não aceita pets no porão.
Na Latam, o custo para transporte na cabine é de R$ 200 por trecho em voos nacionais. Para trajetos regionais entre países da América do Sul, o valor é de US$ 200. Viagens de longa distância para outros continentes custam US$ 250. A Latam também transporta animais no porão, com preços que variam conforme rota e peso do animal.
A Gol cobra R$ 250 para voos domésticos e R$ 600 para voos internacionais, sempre por animal e por trecho. Vale destacar que a empresa está com o serviço de transporte de cães e gatos no porão suspenso por tempo indeterminado desde agosto de 2025.
Além das taxas de transporte, tutores precisam considerar outros custos: consulta veterinária para emissão do atestado sanitário (em média R$ 130), bolsa ou caixa de transporte adequada (entre R$ 80 e R$ 300) e eventual necessidade de hospedagem pet friendly no destino (diárias entre R$ 200 e R$ 400).
Regras específicas para transporte na cabine
Para viajar na cabine junto ao tutor, o animal deve atender critérios rigorosos de peso e dimensões. A maioria das companhias estabelece limite de 10 kg incluindo a caixa de transporte. O recipiente precisa ter ventilação adequada, permitir que o pet se movimente e gire internamente, e contar com trava de segurança.
Durante o voo, a caixa deve permanecer embaixo do assento da frente. O animal não pode ocupar assentos ou ficar solto em nenhum momento. Companhias costumam alocar tutores com pets em assentos de janela, evitando corredores e saídas de emergência.
O número de animais permitidos por voo é limitado: geralmente 3 em voos domésticos e até 5 em voos internacionais, sendo 4 na classe econômica e 1 na executiva. Essa restrição torna essencial a reserva antecipada do serviço, que deve ser feita no momento da compra da passagem ou até 24 horas antes do embarque.
Transporte no porão: quando é necessário
Animais que ultrapassam o limite de peso para a cabine precisam viajar no compartimento de carga. A Latam estabelece diferentes limites conforme o tipo de aeronave: até 32 kg em aviões de um corredor para voos com menos de 4 horas de duração, até 23 kg para voos entre 4 e 5 horas, e até 45 kg em aviões de dois corredores.
O porão tem pressurização idêntica à cabine e é iluminado. As caixas de transporte ficam presas ao chão com cordas e cintos para evitar movimentação durante o voo. No desembarque, o animal é retirado e colocado na área de retirada de bagagens, mas não na esteira comum.
A idade mínima para transporte costuma ser de 4 meses, e o animal deve ter sido desmamado pelo menos cinco dias antes da viagem. Fêmeas prenhas ou que deram à luz nas últimas 48 horas não podem viajar. As companhias também orientam que o animal não esteja sedado e tenha comportamento tranquilo.
Restrições para raças braquicefálicas
Cães como Pug, Bulldog e Shih-tzu, além de gatos Persas, enfrentam restrições severas para viagens aéreas. Essas raças braquicefálicas possuem focinho achatado ou pequeno, o que dificulta a respiração naturalmente. Dentro de um avião, onde o ar é rarefeito, podem sofrer falta de ar e outros problemas respiratórios graves.
Muitas companhias recusam o transporte dessas raças no porão e algumas restringem até mesmo na cabine. A recomendação veterinária é evitar voos muito longos com esses animais. Se a viagem for inevitável, deve ser feita preferencialmente na cabine, em períodos mais frescos do dia, e com acompanhamento veterinário prévio rigoroso.
Cuidados durante viagens rodoviárias
Para quem opta por viajar de carro, o Código de Trânsito Brasileiro estabelece normas claras. É proibido transportar animais soltos no veículo, no colo do motorista ou passageiros, ou com a cabeça para fora da janela. Infrações podem gerar multas.
Animais pequenos devem viajar dentro de caixas de transporte adequadas ou em cadeiras próprias para pets, presas ao cinto de segurança. Cães de grande porte precisam usar guias adaptadas, preferencialmente do modelo peitoral, conectadas diretamente ao cinto de segurança.
O veterinário Raul Galdino recomenda paradas regulares para hidratação e necessidades fisiológicas. O conforto térmico é fundamental: manter ar-condicionado ligado ou janelas abertas em dias quentes. "Nunca deixe o pet sozinho dentro do veículo durante as paradas", alerta o especialista.
Em viagens longas, reduzir levemente a quantidade de comida do animal ajuda a evitar enjoo, mas o acesso à água fresca deve ser constante, principalmente em dias quentes. A alimentação deve acontecer apenas nos intervalos das paradas.
Adaptação ao destino e cuidados especiais
Ao chegar no local da viagem, a adaptação do animal deve ser gradual. Levar objetos familiares como cama própria, brinquedos e mantas ajuda o pet a reconhecer o ambiente como seguro, reduzindo ansiedade e alterações no apetite.
Para destinos litorâneos ou áreas rurais, cuidados adicionais são necessários: manter hidratação constante, usar coleira e guia com identificação, evitar exposição solar entre 10h e 16h (horário de maior risco para queimaduras nas patas), impedir ingestão de água do mar e manter proteção contra pulgas e carrapatos atualizada.
O verão brasileiro impõe desafios específicos. Mudanças bruscas de temperatura e umidade podem desencadear crises respiratórias e dermatológicas. Raças braquicefálicas sofrem ainda mais nesse período e exigem vigilância redobrada.
Checklist completo para viagem com pet
Antes de partir, verifique se todos os itens estão em ordem. Consulta veterinária deve acontecer com pelo menos 15 dias de antecedência para permitir ajustes na vacinação ou medicação preventiva. O atestado sanitário só pode ser emitido até 10 dias antes da viagem.
A caixa de transporte precisa ser adequada ao tamanho do animal, ventilada e segura. Adaptação prévia é fundamental: deixar a caixa aberta em casa cerca de 15 dias antes da partida, oferecendo petiscos e colocando a comida dentro dela para criar associação positiva.
No dia do embarque, ofereça apenas alimentação leve 2 a 3 horas antes da viagem. Apare as unhas e dê banho no pet antes da partida. Leve documentação completa em pasta organizada: atestado sanitário, carteira de vacinação, comprovante de pagamento do serviço de transporte e contato do veterinário.
Para viagens ao exterior, documentação é ainda mais complexa e varia conforme o país de destino. É necessário Certificado Veterinário Internacional emitido pelo Ministério da Agricultura, microchip de identificação e, em alguns casos, sorologia para comprovar eficácia da vacina antirrábica.
Consulte antecipadamente a política da companhia aérea, reserve o serviço de transporte com antecedência e confirme disponibilidade no voo escolhido. O planejamento detalhado transforma uma viagem potencialmente estressante em experiência tranquila e segura para toda a família.

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