R$ 55,4 bilhões. Esse foi o faturamento das empresas relacionadas ao turismo apenas nos três primeiros meses de 2025, segundo dados da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo. O número representa o maior montante desde 2014 e revela uma realidade incontestável: dezenas de cidades brasileiras dependem quase exclusivamente dessa atividade econômica para sobreviver.
Enquanto grandes metrópoles diversificam suas fontes de renda entre indústria, comércio e serviços, municípios como Bonito, Gramado, Campos do Jordão, Jericoacoara e Fernando de Noronha construíram toda sua estrutura econômica em torno dos visitantes. Restaurantes, pousadas, agências de passeios, guias turísticos e até o comércio local giram ao ritmo das temporadas de alta e baixa procura.
A capital do ecoturismo, Bonito, no Mato Grosso do Sul, ilustra perfeitamente essa dependência. Em 2023, a cidade recebeu mais de 300 mil visitantes em seus mais de 40 atrativos naturais, número recorde desde 2015. Cachoeiras cristalinas, grutas e rios transparentes transformaram um pequeno município em destino internacional, gerando empregos e movimentando toda a cadeia produtiva regional.

Infraestrutura que cresce com os visitantes
Gramado, no Rio Grande do Sul, apostou em uma estratégia diferente para consolidar o turismo como pilar econômico. A cidade registrou 8 milhões de visitantes em 2023, batendo recorde histórico de ocupação hoteleira. O Natal Luz, evento que movimenta mais de 2.000 pessoas na cadeia produtiva com orçamento de R$ 30 milhões, exemplifica como eventos temáticos podem estruturar toda a economia local durante meses.
A GramadoTur, autarquia municipal responsável pelo turismo, atua sem as limitações fiscais de departamentos públicos tradicionais, permitindo gestão mais ágil de eventos de grande porte. A estratégia funciona: a cidade cresceu 11% no fluxo turístico nos últimos cinco anos, segundo dados apresentados pela prefeitura em encontro com empresários de Campos do Jordão.
Campos do Jordão, conhecida como a Suíça Brasileira, enfrenta desafios similares. Localizada na Serra da Mantiqueira, a 165 quilômetros de São Paulo, a cidade atrai visitantes principalmente no inverno, entre junho e agosto, quando sedia o Festival de Inverno. A concentração de demanda nesse período evidencia um problema comum às cidades turísticas: a sazonalidade.
Dados apresentados por empresários locais revelam que a taxa de ocupação hoteleira em Campos do Jordão gira em torno de 45%, indicando necessidade de ampliar produtos turísticos para combater períodos de baixa procura. A comparação com Gramado mostrou que a cidade gaúcha desenvolveu mais opções de hotéis temáticos e multipropriedades, diferenciais que ajudam a manter ocupação estável ao longo do ano.
O preço da exclusividade natural
Fernando de Noronha representa o caso mais extremo de dependência turística no Brasil. Com apenas 3.500 habitantes, o arquipélago pernambucano recebe visitantes o ano inteiro, mantendo ocupação entre 50% e 60% nas pousadas, chegando a quase 80% entre setembro e outubro. Em 2021, no período pós-pandemia, a ilha atraiu 114 mil turistas, sendo 99,39% brasileiros.
A economia local gira inteiramente em torno de hotéis, agências de passeios e restaurantes. Os turistas contribuíram com R$ 41,5 milhões em taxas de preservação ambiental em 2021, valor essencial para manter os atrativos naturais que justificam os preços elevados cobrados no arquipélago. O modelo demonstra como a preservação ambiental pode caminhar junto com desenvolvimento econômico.
Jericoacoara, no Ceará, seguiu trajetória semelhante. O que era uma vila de pescadores transformou-se em destino internacional, liderando a visitação de parques nacionais do Nordeste com 1,5 milhão de turistas em 2024. O Parque Nacional de Jericoacoara foi o terceiro mais procurado do país, atrás apenas do Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, e do Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná.
Pequenos negócios sustentam a cadeia
O perfil dos empreendimentos nessas cidades revela outra característica marcante: 97% das empresas turísticas são de pequeno porte. Restaurantes familiares, serviços de transporte, guias autônomos, artesãos e hospedarias compõem a maior parte da oferta turística.
No primeiro trimestre de 2025, o Brasil registrou 62.481 vagas de emprego com carteira assinada em atividades turísticas, segundo o Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados. Alojamento e alimentação lideraram com 27.333 novas oportunidades, reforçando o impacto direto do setor na geração de empregos.
Caldas Novas, em Goiás, consolidou-se como destino termal explorando águas quentes naturais. Olímpia, no interior de São Paulo, registrou ocupação hoteleira que ultrapassou 4,8 milhões de turistas em 2023, crescimento de quase 40% em comparação com 2022. Esses números demonstram como a diversificação de atrativos pode impulsionar cidades menores.
Sustentabilidade como diferencial competitivo
Oito cidades brasileiras receberam reconhecimento internacional da Green Destinations por práticas sustentáveis no turismo. Urubici e Bom Jardim da Serra, na região serrana de Santa Catarina, destacaram-se ao criar diretrizes para desenvolvimento turístico sustentável, preservando o bioma da Mata Atlântica enquanto impulsionam nova atividade econômica.
Carrancas, no sul de Minas Gerais, limita o número de visitantes em trilhas e cachoeiras, investindo em educação ambiental e capacitação de guias locais. A gestão sustentável das nascentes garantiu destaque em guias de viagem e transformou a preservação em vantagem competitiva.
Tibau do Sul, no Rio Grande do Norte, demonstrou como inovação pode transformar comunidades. Extrativistas que antes praticavam pesca sem considerações ambientais criaram a APROOSTRAS, fomentando cultivo sustentável de ostras. A iniciativa estabeleceu a rota das ostras como alternativa de produção associada ao turismo, beneficiando economicamente a população local.
São Miguel do Gostoso, também no Rio Grande do Norte, fundou a TRIIBO Agroforestry em 2018, oferecendo capacitação, educação ambiental e feiras agroecológicas que defendem agricultura regenerativa. A abordagem mostra como turismo pode integrar-se a outras atividades econômicas sustentáveis.
Desafios da dependência econômica
A dependência quase total do turismo expõe essas cidades a vulnerabilidades. Crises econômicas, pandemias ou mudanças climáticas podem derrubar drasticamente o número de visitantes, afetando toda a cadeia produtiva local. Gramado enfrentou essa realidade em 2024, quando enchentes no Rio Grande do Sul provocaram queda de 16,6% no faturamento turístico estadual em maio, com perdas estimadas em mais de R$ 118 milhões.
A campanha "Uma força para o RS - Campos do Jordão ajuda Gramado", lançada pelo Movimento Supera Turismo Brasil, exemplifica a solidariedade entre destinos turísticos, mas também evidencia a fragilidade do modelo. Quando o turismo para, a economia local para junto.
Especialistas recomendam diversificação de atividades econômicas como saída para reduzir riscos. Comunidades que combinam turismo com agricultura, artesanato, pesca sustentável ou outros setores tendem a resistir melhor a períodos de crise. A questão é que muitas dessas cidades encontraram no turismo a única atividade economicamente viável em grande escala.
Balneário Camboriú, em Santa Catarina, Arraial d'Ajuda e Trancoso, na Bahia, Paraty, no Rio de Janeiro, e Alter do Chão, no Pará, completam a lista de destinos brasileiros onde o turismo representa a principal — senão única — fonte de renda significativa. Cada uma desenvolveu identidade própria, explorando praias, cultura histórica, ecoturismo ou eventos sazonais.
O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade estima que cada real investido em Unidades de Conservação pode gerar até R$ 7 de retorno na economia local, com impactos positivos em hospedagem, transporte, alimentação e comércio. Os números justificam a aposta das cidades no setor, mas reforçam a necessidade de planejamento estratégico para garantir sustentabilidade a longo prazo.
Para 2025, a expectativa é ampliar projetos de concessão para serviços turísticos, com ações voltadas para qualificação de infraestrutura, acessibilidade e promoção de práticas sustentáveis. O Ministério do Turismo desenvolve o programa "Conheça o Brasil: Voando", em parceria com empresas aéreas, aumentando oferta de voos e criando opções de stopover em cidades estratégicas.
O turismo continuará sendo motor econômico essencial para dezenas de municípios brasileiros. A diferença entre crescimento sustentável e dependência arriscada está na capacidade de equilibrar preservação ambiental, qualidade de vida da população local e gestão profissional dos atrativos turísticos.

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