Chegou a hora de repensar o roteiro. Quem já passou horas esperando em fila para ver uma cachoeira, disputou espaço em praia lotada ou pagou caro demais por um hostel em alta temporada sabe bem o que é o turismo excessivo — ou overtourism, como o fenômeno ficou conhecido no mundo. O que mudou recentemente é que, em vez de aceitar esse cenário, uma fatia crescente de viajantes está simplesmente desviando do caminho mais óbvio.
Segundo levantamento divulgado pela Panrotas, um em cada três brasileiros (33%) pretende evitar destinos superlotados e descobrir lugares menos conhecidos. É uma mudança de comportamento relevante, e ela não aconteceu por acaso. A combinação entre redes sociais que massificam destinos, custo elevado de viagem em alta temporada e a busca por experiências genuínas criou o terreno perfeito para o turismo alternativo ganhar força.

O que é o overtourism e por que ele cresce
O overtourism acontece quando o volume de visitantes ultrapassa a capacidade de suporte de um destino — seja em termos de infraestrutura, meio ambiente ou qualidade de vida dos moradores locais. Cidades como Barcelona, Santorini e Amsterdã já tomaram medidas drásticas: proibição de novos hotéis, taxas extras para turistas e até protestos populares nas ruas.
No Brasil, o fenômeno também tem endereço. Gramado, Florianópolis e alguns destinos naturais como Bonito (MS) enfrentam fluxo intenso em determinadas épocas. Especialistas do setor, ouvidos pelo portal Hotelier News, apontam que a superlotação se agrava durante Carnaval, Réveillon e grandes festivais — períodos em que a demanda simplesmente não cabe na oferta disponível.
O resultado vai além do desconforto. A degradação ambiental é real: em Bali, na Indonésia, o turismo descontrolado gera mais de 300 mil toneladas de lixo plástico por ano, com apenas 7% sendo reciclados. No Monte Everest, são cerca de 790 quilos de resíduos despejados diariamente na neve. São números que assustam e que, cada vez mais, pesam na decisão de quem viaja com consciência.
Redes sociais: aliadas e vilãs ao mesmo tempo
Há uma ironia nessa história toda. As redes sociais foram responsáveis por transformar destinos tranquilos em pontos turísticos superlotados — e agora são elas mesmas que estão alimentando o movimento contrário. Perfis voltados ao turismo consciente, ao slow travel e à descoberta de lugares menos conhecidos acumulam seguidores no Brasil e no mundo.
O ciclo funciona assim: um destino ganha visibilidade no Instagram ou no TikTok, o volume de visitantes explode, a experiência piora, e os próprios usuários começam a reclamar do lugar que antes exaltavam. Não demorou muito para que surgisse um contramovimento de quem prefere o desconhecido ao famoso — o que acabou criando uma nova geração de influenciadores especializados em "fuga das multidões".
A tendência tem até nome: JOMO, sigla em inglês para "Joy of Missing Out" (a alegria de ficar de fora). Enquanto o FOMO — o medo de perder algo — impulsionava viagens a destinos do momento, o JOMO propõe o oposto: o prazer de escolher o silêncio, o inusitado e a experiência pessoal em vez do espetáculo coletivo.
Slow travel: viajar menos, viver mais
Uma das respostas mais elegantes ao overtourism é o slow travel — a ideia de viajar mais devagar, ficando mais tempo em cada destino e priorizando a imersão cultural em vez de "colecionar" cidades. Levantamentos recentes apontam que viajantes adeptos desse estilo ficam, em média, 16 dias no mesmo destino, contra os tradicionais 4 ou 5 dias dos roteiros convencionais.
Na prática, isso significa alugar um apartamento em vez de hotel, frequentar mercados locais, fazer amizade com os moradores e descobrir restaurantes que não aparecem nos guias. Para os brasileiros, o slow travel tem encontrado terreno fértil no interior dos estados: cidades históricas de Minas Gerais, vilas do litoral gaúcho e pequenos municípios do Nordeste têm recebido um fluxo crescente de visitantes que buscam exatamente essa autenticidade.
Destinos alternativos que ganham protagonismo no Brasil
A boa notícia para quem quer fugir da multidão é que o Brasil tem território mais do que suficiente para acomodar esse desejo. O Ministério do Turismo, em parceria com a Embratur, identificou em seu relatório de tendências que os destinos alternativos estão ganhando protagonismo justamente por oferecerem experiências únicas sem a pressão das grandes concentrações turísticas. Veja algumas opções que se destacam:
- Chapada das Mesas (MA): cachoeiras impressionantes com muito menos turistas que a Chapada Diamantina
- Península de Maraú (BA): praias paradisíacas de acesso limitado que ainda preservam a calma
- São Luiz do Paraitinga (SP): cidade histórica paulista com vida cultural ativa e sem o trânsito de Paraty
- Visconde de Mauá (RJ): vila serrana com trilhas, cachoeiras e pousadas charmosas longe do caos
- Lençóis Maranhenses (MA): paisagem única que atrai quem quer experiência genuína de natureza
- Alter do Chão (PA): chamada de "Caribe da Amazônia", ainda fora dos roteiros mais massificados
Esses destinos têm em comum uma infraestrutura suficiente para receber visitantes sem comprometer o ambiente local. Quem planeja conhecer destinos brasileiros escondidos pode encontrar surpresas que superam qualquer expectativa criada pelos feeds das redes sociais.
O peso financeiro também conta
Além da experiência em si, o bolso fala alto nessa equação. Viajar para destinos alternativos em baixa temporada pode representar uma economia significativa: passagens mais baratas, hospedagem com preços reduzidos e serviços menos inflacionados pelo excesso de demanda. Para o viajante brasileiro, pressionado pelo câmbio e pelo custo de vida, essa lógica faz todo sentido.
Quem adota o modelo de viagem com programas de fidelidade e cashback amplia ainda mais a margem de manobra financeira. Usar milhas para passagens e acumular benefícios em hospedagens fora do pico da temporada é uma estratégia cada vez mais popular entre os viajantes que fogem das multidões sem abrir mão do conforto.
O relatório de tendências elaborado pelo Ministério do Turismo confirma que a busca por autenticidade e a fuga dos destinos superlotados são movimentos complementares — e ambos crescem em ritmo acelerado entre os viajantes brasileiros. A ideia de que viajar bem exige ir para os lugares mais badalados está, definitivamente, perdendo força.
Como planejar uma viagem fora dos roteiros tradicionais
A transição para o turismo alternativo não precisa ser radical. Pequenos ajustes no planejamento já fazem diferença: evitar feriados prolongados, optar por destinos a menos de 300 km de casa e reservar hospedagem em pousadas locais em vez de redes internacionais são passos acessíveis. O impacto na qualidade da viagem, segundo quem já fez essa mudança, costuma ser imediato.
Para quem quer ir um passo além, o modelo de turismo sem roteiro fixo tem ganhado adeptos entre diferentes faixas etárias. A lógica é simples: chegar a um lugar com referências básicas e deixar que a própria experiência defina os próximos passos. Menos pressão, mais descoberta.
O turismo consciente não é apenas uma tendência passageira. É uma resposta concreta a um modelo de viagem que chegou ao limite. Destinos superlotados, ambientes degradados e experiências artificiais estão levando viajantes de todo o mundo — inclusive os brasileiros — a redescobrir o prazer de ir ao lugar certo na hora certa, sem dividir esse momento com multidões.

Comentários (0) Postar um Comentário