A locação de imóveis para curta temporada tem movimentado cifras bilionárias no Rio de Janeiro. Em 2025, a atividade do Airbnb gerou quase R$ 21 bilhões na economia do estado, alta superior a 16% em relação ao ano anterior, segundo atualização de um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV), encomendada pela plataforma. Somente na capital, a movimentação passou de R$ 12 bilhões, com crescimento de 21% sobre 2024.

A possibilidade de obter retornos maiores do que em contratos convencionais ajuda a explicar o interesse de investidores no segmento. Levantamento da Referência Capital, repercutido pela Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Rio de Janeiro (Ademi-RJ), indica que a locação por temporada pode alcançar rentabilidade de até 1,4% ao mês, ante cerca de 0,4% a 0,5% do aluguel tradicional. Somada à valorização do imóvel, a taxa pode chegar a 21% ao ano.
Para quem pretende investir nesse mercado, a receita obtida com as diárias é apenas uma parte da conta. O valor desembolsado na aquisição influencia diretamente o retorno sobre o capital investido, o que coloca propriedades compradas abaixo do preço de mercado entre as possibilidades avaliadas. Diante desse cenário, oportunidades de leilão de imóveis no RJ podem entrar no radar de investidores interessados em reduzir o custo inicial do ativo.
De acordo com uma reportagem repercutida pela Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), aquisição de imóveis ofertados em leilões com foco em locação de curto prazo já é uma tendência observada por especialistas do setor, assim como a prática de "house flipping", que consiste em adquirir propriedades, realizar reformas e revendê-las por um valor mais alto.
Parte das oportunidades de leilões vem de instituições financeiras que retomaram propriedades após a inadimplência dos antigos compradores. Segundo a Abecip, não é difícil encontrar ofertas ligadas a grandes bancos, como leilão de imóveis Santander, Itaú, Caixa e outras instituições.
A associação relaciona esse movimento ao cenário de juros e inflação elevados, que pode aumentar a inadimplência e, consequentemente, ampliar a oferta de imóveis retomados.
O desconto varia conforme o imóvel e a etapa de venda. Em propriedades retomadas por bancos, o primeiro leilão costuma considerar o valor de mercado apontado em avaliação. Caso não haja comprador, uma segunda rodada pode ter como referência o saldo da dívida acrescido dos custos do processo. Nessa fase, há situações em que o desconto chega a 60% ou 70%, como explica a Abecip.
Localização, dívidas e estado do imóvel devem ser avaliados antes do leilão
O preço mais baixo, sozinho, não garante um investimento rentável. Antes de arrematar uma propriedade, seja em leilão de imóveis judiciais ou em uma modalidade extrajudicial, um dos pontos a avaliar, segundo publicação da Abecip, é o potencial de valorização da região.
No Rio de Janeiro, áreas como Copacabana e Ipanema apresentam procura elevada ao longo do ano. De acordo com o estudo da Referência Capital, a rentabilidade nesses bairros varia entre 9% e 14%, enquanto a valorização chega a 7%, levando o retorno combinado a até 21% ao ano.
Outros destinos também aparecem entre os mercados analisados pela consultoria. Em São Paulo, bairros como Jardins, Pinheiros e Vila Madalena registram rentabilidade estimada entre 10% e 12%, além de valorização média de 8%. Já Balneário Camboriú, em Santa Catarina, apresenta rentabilidade de até 14% em áreas como Centro e Barra Sul, somada a uma valorização de 10%.
Junto à localização, a Abecip recomenda observar a situação de ocupação do imóvel e quem ficará responsável por uma eventual desocupação, a existência de débitos relacionados à propriedade, a regularidade da matrícula e possíveis problemas no processo de leilão.
O estado de conservação e os gastos estimados com reforma também precisam entrar no cálculo. O mesmo vale para despesas posteriores ao arremate, como Imposto sobre a Transmissão de Bens Imóveis (ITBI), escritura, documentação, emissão de certidões e eventuais custos judiciais, que podem elevar o valor efetivamente investido.
Regras do condomínio também entram na análise do investimento
Além das condições financeiras e documentais da compra, investidores interessados em Airbnb ou Booking precisam verificar se o uso pretendido é compatível com as normas do condomínio. Em maio de 2026, a Segunda Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que tipo de uso, em situações de exploração econômica ou profissional, podem descaracterizar a finalidade residencial do imóvel.
Segundo o tribunal, a mudança na destinação das unidades precisa ser aprovada em assembleia por pelo menos dois terços dos condôminos. Sem essa autorização, a locação de curta temporada pode ser impedida quando contrariar o uso residencial previsto pelo condomínio.
Assim, quem pretende comprar um imóvel em leilão para destiná-lo à locação de curta temporada precisa avaliar a convenção e as regras internas antes do arremate. Um preço de aquisição reduzido pode melhorar a margem do investimento, mas a conta só se completa quando localização, custos adicionais, condições jurídicas do imóvel e possibilidade de exploração da unidade também são consideradas.

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