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Como evitar golpes ao contratar empréstimo em fintechs digitais

Especialistas revelam principais sinais de alerta e ensinam verificação de licenças SCD e SEP no Banco Central antes de fechar negócio.
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Direto ao Ponto:

  • R$ 1,74 bilhão em desvios foram registrados em ataques contra fintechs brasileiras apenas em 2024
  • Mais de 50% dos brasileiros sofreram algum tipo de fraude financeira digital no último ano
  • Banco Central exige verificação rigorosa de licenças SCD ou SEP para fintechs de crédito
  • Golpistas usam promessas de crédito rápido sem análise para aplicar golpes pelo WhatsApp
  • Verificar CNPJ ativo na Receita Federal é primeiro passo essencial antes de contratar empréstimo

R$ 1,74 bilhão. Esse é o valor identificado em desvios causados por ataques cibernéticos contra fintechs brasileiras apenas entre julho e outubro de 2024, segundo dados compilados pelo Banco Central do Brasil. Os números expõem uma realidade preocupante: enquanto o mercado de crédito digital cresce exponencialmente no país, as fraudes e golpes financeiros acompanham essa expansão em ritmo igualmente acelerado.

A base de clientes pessoa física das fintechs saltou de 25,6 milhões em 2022 para 46,7 milhões em 2023, um crescimento de 82%, conforme revela a Pesquisa Fintechs de Crédito Digital realizada pela PwC e pela Associação Brasileira de Crédito Digital. Paralelamente, o volume de crédito movimentado alcançou R$ 21,1 bilhões, alta de 52% no período.

Mas esse cenário promissor tem um lado sombrio. Criminosos aproveitam a facilidade de abertura de empresas MEI falsas e contas digitais com titulares "laranja" para aplicar golpes cada vez mais sofisticados, usando nomes de fintechs reais para oferecer empréstimos fraudulentos.

Como evitar golpes ao contratar empréstimo em fintechs digitais
Créditos: Redação

A escalada dos golpes financeiros no ambiente digital

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024 registrou aumento de 13,6% nos casos de estelionato digital entre 2022 e 2023. Especialistas alertam que a inteligência artificial tem sido usada para criar perfis falsos e mensagens cada vez mais convincentes, dificultando a identificação de fraudes.

Thiago Gaspar, diretor financeiro e de operações da fintech Gyra+, relata que o nome e a identidade visual da empresa têm sido usados por fraudadores em sites e perfis falsos nas redes sociais. "Ainda atendemos diariamente mais de 45 reclamações de pessoas que caíram no golpe de fraudadores que se passam por nós – e nós sequer concedemos empréstimos para pessoas físicas, só para empresas", revela o executivo de uma fintech que preferiu não se identificar.

A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) informou que as fraudes bancárias pela internet cresceram 80% durante a pandemia. Dados da pesquisa elaborada pela PSafe demonstram um aumento de 1.191% no número de tentativas de golpe via Pix no primeiro semestre de 2022, comparado ao mesmo período do ano anterior.

Como funcionam as principais modalidades de golpes

Os criminosos operam com táticas diversificadas, mas todas exploram um denominador comum: a necessidade urgente de crédito. O golpe do empréstimo falso começa com a abordagem de um suposto funcionário de uma financeira por telefone, WhatsApp, e-mail ou redes sociais.

Eduardo Silva, CEO do Edan Finance Group, explica que as fintechs possuem um limite de absorção de aumentos de juros que gira em torno de 1 ponto percentual ao longo de 12 meses. "O mercado brasileiro é cíclico quando se refere à taxa de juros", afirma. Com a Selic projetada para alcançar 15% ao ano, o crédito fica mais caro e arriscado, tornando as ofertas fraudulentas ainda mais atraentes para consumidores desesperados.

Entre as modalidades mais comuns estão os sites falsos que replicam o visual de bancos renomados, captando informações pessoais quando a vítima tenta simular um empréstimo. Outra prática crescente envolve ligações telefônicas fraudulentas, muitas vezes com números que imitam os canais oficiais das instituições.

No golpe do empréstimo consignado, aposentados e servidores públicos são os alvos principais. Criminosos conseguem dados pessoais em vazamentos e fazem empréstimos verdadeiros em nome das vítimas. Assim que o dinheiro cai na conta, entram em contato se passando por funcionários do banco e solicitam a devolução do valor via Pix ou transferência bancária.

O que dizem as autoridades sobre segurança

Em resposta aos ataques cibernéticos, o Banco Central anunciou em setembro de 2025 um pacote emergencial de medidas voltadas à segurança do Sistema Financeiro Nacional. As novas regras atingem principalmente fintechs, instituições de pagamento não autorizadas e empresas que atuam como Prestadoras de Serviços de Tecnologia da Informação.

Fintechs não autorizadas e instituições conectadas via PSTIs passaram a ter limite de R$ 15.000 por operação de Pix ou TED. Foi estabelecido também um capital mínimo de R$ 15 milhões para as PSTIs. As empresas já em atividade tiveram quatro meses para se adequar às exigências.

A regulamentação também determina que apenas instituições integrantes dos segmentos S1, S2, S3 ou S4 (exceto cooperativas) podem ser responsáveis pelo Pix de fintechs não autorizadas. Contratos vigentes devem ser ajustados em até 180 dias.

Como verificar a idoneidade de uma fintech antes de contratar

Thaíne Clemente, executiva de dados da Simplic, fintech especializada em crédito pessoal online, orienta que o primeiro passo é confirmar se a instituição possui um CNPJ ativo e regular perante a Receita Federal. "Isso pode ser verificado gratuitamente em portais como o da Receita Federal ou serviços como o Sintegra", explica.

As fintechs de crédito que operam de forma independente devem estar registradas no Banco Central como Sociedade de Crédito Direto (SCD) ou Sociedade de Empréstimo entre Pessoas (SEP). Segundo dados do Banco Central, quase metade das fintechs pesquisadas (46%) já têm a licença do BC para operar, em comparação com apenas 11% em 2019.

A SCD é autorizada a realizar operações de empréstimo, financiamento e aquisição de direitos creditórios exclusivamente por meio de plataforma eletrônica, utilizando recursos financeiros que tenham como única origem capital próprio. Já a SEP viabiliza operações de empréstimo e financiamento entre pessoas por meio eletrônico, intermediando recursos de credores cadastrados em sua plataforma.

Para obter autorização, as fintechs devem ser constituídas sob a forma de sociedade anônima e observar permanentemente o limite mínimo de R$ 1 milhão em relação ao capital social integralizado e ao patrimônio líquido. O Banco Central verifica a origem dos recursos utilizados no empreendimento pelos controladores e se há compatibilidade da capacidade econômico-financeira com o porte do negócio.

Sinais de alerta para identificar ofertas fraudulentas

Instituições financeiras sérias nunca solicitam pagamento antecipado para liberação de crédito. Qualquer cobrança de taxa antes da análise ou aprovação do empréstimo é sinal inequívoco de fraude. Da mesma forma, boletos verdadeiros de empréstimos sempre estão em nome de pessoas jurídicas – nenhuma instituição financeira confiável utiliza contas de pessoas físicas para receber.

Ofertas com taxas de juros significativamente abaixo do mercado, especialmente para negativados, devem ser vistas com extrema desconfiança. O Banco Central divulga mensalmente as taxas médias praticadas no mercado de crédito, servindo como referência para avaliar se uma proposta é realista.

Pressão por urgência na contratação é outra tática comum. Frases como "oferta válida só hoje" ou "últimas vagas disponíveis" buscam impedir que a vítima tenha tempo de verificar a idoneidade da empresa. Empresas sérias respeitam o período de reflexão do consumidor e fornecem todas as informações contratuais por escrito.

Solicitações de dados pessoais por redes sociais, WhatsApp ou e-mails não oficiais também devem acender um alerta vermelho. Ao solicitar um empréstimo em uma instituição séria, o envio de documentos é feito diretamente nos sites oficiais e aplicativos da empresa, nunca por esses canais.

Medidas de proteção ao consumidor

A Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD) lançou uma campanha com orientações de segurança nas redes sociais e sites da entidade e das fintechs participantes. A iniciativa visa ajudar os clientes a não cair em golpes, com veiculação intensiva de conteúdo educativo.

Especialistas recomendam a verificação cruzada de informações em diferentes fontes antes de contratar qualquer empréstimo. Consultar o Reclame Aqui, buscar avaliações de outros clientes e pesquisar sobre a reputação da empresa são passos fundamentais.

Fábio Neufeld, líder da vertical de crédito da ABFintechs, destaca a importância da regulação. "Agora, quem for se financiar com uma fintech autorizada pelo Banco Central, saberá que está lidando diretamente com uma instituição regulada e auditada pela autoridade máxima do mercado financeiro", explica.

O uso de ferramentas de segurança como biometria facial e análise comportamental tem crescido entre as fintechs. Segundo a Serasa Experian, o uso de biometria facial cresceu 67% como medida de proteção contra fraudes. No entanto, essas tecnologias não eliminam a necessidade de cuidado por parte do consumidor.

O que fazer em caso de fraude

Se você for vítima do golpe do empréstimo, a primeira providência é registrar um boletim de ocorrência imediatamente, detalhando o que aconteceu. Reúna provas do ocorrido, como comprovante de depósito, capturas de tela do site que ofereceu o empréstimo e conversas com os criminosos.

Em seguida, avise seu banco e registre o caso em órgãos de defesa do consumidor, como o Procon da sua região. O resguardo dos dados pessoais e a prevenção de futuras tentativas de fraudes dependem dessas medidas formais.

Para consumidores que já tiveram dados expostos em vazamentos, o monitoramento constante de movimentações no CPF é essencial. Serviços como o Serasa Premium oferecem alertas por e-mail e SMS sempre que houver uma movimentação no CPF, incluindo novas consultas, protestos e ações judiciais.

A função Lock&Unlock, disponível em alguns serviços, permite bloquear e desbloquear o Serasa Score para consultas de terceiros, dificultando que golpistas peçam crédito em nome da vítima.

O cenário para 2025 e as perspectivas do setor

O ano de 2025 começa desafiador para as fintechs. Com a Selic a 12,25% ao ano e previsão de chegar a 15%, o crédito ficará mais caro e menos atraente para os tomadores. A fuga de capital causada pelo dólar na casa dos R$ 6 adiciona pressão ao setor.

Francisco Ferreira, presidente da ABCD, aponta o novo crédito consignado privado como uma das grandes apostas do setor. "Essa iniciativa de fato vai criar um mercado novo, ao permitir acesso a crédito a toda uma categoria de trabalhadores que atualmente não têm essa opção, independentemente do tamanho das empresas em que atuem e do vínculo trabalhista que tenham", comenta.

A regulamentação dos modelos de parceria de serviços financeiros e de pagamento, tratada na Consulta Pública 108 sobre Banking as a Service, deve aumentar o nível de exigência no segmento. Para Rogério Melfi, especialista do setor financeiro, as novas regras vão profissionalizar ainda mais o mercado.

Enio Almeida, diretor executivo da Wise Brasil, acredita que as parcerias entre fintechs e bancos convencionais vão se estreitar. "Tais parcerias aproveitarão o poder inovador das fintechs e a ampla rede e recursos dos grandes bancos, resultando em serviços financeiros aprimorados que atendam às necessidades crescentes dos consumidores", afirma.

O Open Finance, sistema que permite o compartilhamento de dados financeiros entre instituições com consentimento do cliente, registrou 43,85 milhões de consentimentos ativos em 2024. A expectativa é de que o sistema atinja uma parcela ainda maior da população em 2025, desde que haja campanhas eficazes de educação financeira.

Para os consumidores, a mensagem é clara: a informação continua sendo a melhor defesa contra fraudes. Verificar licenças, pesquisar reputação, desconfiar de ofertas irreais e nunca pagar taxas antecipadas são práticas que podem evitar prejuízos financeiros e emocionais significativos.


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