R$ 200 de compras no supermercado podem se transformar em R$ 400 de dívida em apenas 12 meses. Esse é o cenário real que milhões de brasileiros enfrentam ao deixarem de pagar o valor total da fatura do cartão de crédito. A pesquisa mais recente da Confederação Nacional do Comércio (CNC) trouxe um dado alarmante: 90% das famílias endividadas apontam o plástico como o principal responsável por suas dívidas.
O que deveria ser uma ferramenta de conveniência no pagamento virou, na prática, um mecanismo de sobrevivência. Segundo levantamento inédito da CNC divulgado em outubro de 2024, três em cada dez brasileiros endividados no cartão de crédito utilizam a modalidade especificamente para comprar comida, roupas e calçados — itens que antes eram pagos prioritariamente à vista.
Os números revelam uma transformação profunda nos hábitos de consumo das famílias brasileiras. Entre janeiro de 2024 e maio de 2025, o percentual de famílias endividadas oscilou entre 76% e 79%, com o cartão de crédito liderando disparado como principal modalidade de dívida. A pesquisa, que ouve mensalmente cerca de 18 mil famílias em todas as capitais brasileiras, mostra um país cada vez mais dependente do crédito rotativo para fechar as contas do mês.

Juros estratosféricos e a armadilha do rotativo
Enquanto o governo implementou em janeiro de 2024 um teto que limita os juros a 100% do valor original da dívida para novas contratações, os consumidores que já estavam endividados continuam enfrentando taxas que chegam a 451,5% ao ano, segundo dados do Banco Central divulgados em setembro de 2025.
Para se ter uma ideia do impacto, uma dívida de R$ 1.000 deixada no rotativo por um ano pode facilmente ultrapassar R$ 4.500 com os juros acumulados. "A dependência crescente do cartão de crédito, especialmente para despesas cotidianas como alimentação e vestuário, coloca as famílias em uma posição vulnerável devido aos altos juros", alertou o economista-chefe da CNC, Felipe Tavares, em análise da pesquisa de setembro de 2024.
O crédito rotativo funciona como uma armadilha invisível: quando o consumidor paga apenas o valor mínimo da fatura — geralmente 15% do total — o restante entra no rotativo por 30 dias. Se após esse período a dívida não for quitada ou parcelada, os juros continuam sendo aplicados, transformando pequenas compras em débitos impagáveis.
Desigualdade social se reflete no endividamento
A análise por faixa de renda expõe uma realidade brutal: quanto menor o poder aquisitivo, maior o peso das dívidas. As famílias que recebem até três salários mínimos apresentam taxa de endividamento de 81%, enquanto apenas 66,7% das famílias com renda acima de dez salários mínimos declararam ter dívidas, conforme dados de novembro de 2024.
A inadimplência também é significativamente maior entre os mais pobres: 35,8% das famílias de baixa renda estão com contas em atraso, contra apenas 13,2% no grupo de renda mais alta. Para essas famílias, a ausência de poupança e a dependência do crédito rotativo transformam qualquer imprevisto financeiro — desemprego, doença ou redução de renda — em um gatilho para o endividamento estrutural.
José Roberto Tadros, presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, resume a situação: "O aumento da taxa Selic tem encarecido o acesso ao crédito, tanto para os consumidores quanto para as empresas. É essencial que o mercado encontre um equilíbrio, pois a restrição de crédito pode impactar negativamente a economia nacional".
Da ferramenta de consumo ao instrumento de sobrevivência
A professora Danieli Silveira viveu na pele a transformação do cartão de crédito em vilão financeiro. Em entrevista à Agência Brasil em janeiro de 2025, ela relatou como o desemprego a levou primeiro ao cheque especial e, depois, aos cartões de crédito para suprir necessidades básicas. "Um cartão pra pagar outro", descreveu a docente, que conseguiu se recuperar reduzindo drasticamente os gastos e evitando parcelas.
Histórias como a de Danieli se multiplicam pelo país. O técnico Cesar, também ouvido pela mesma reportagem, acumulou dívidas no cartão de crédito mesmo já tendo financiamento imobiliário e outros empréstimos. Preocupado principalmente com a saúde mental da esposa e da família, ele buscou o Procon paulista para renegociar os juros e conseguir condições melhores de pagamento.
Especialistas em educação financeira apontam que o problema não está no cartão em si, mas no uso inadequado e na falta de planejamento. O economista Fabio Bentes, da CNC, alerta que o crescente gasto das famílias com serviços acende um sinal vermelho, pois demonstra dificuldade em equilibrar o orçamento doméstico.
Novas regras trouxeram algum alívio?
Desde janeiro de 2024, uma nova legislação estabeleceu que o valor total cobrado em juros do rotativo não pode ultrapassar 100% do valor original da dívida. Na prática, uma compra de R$ 100 que entra no rotativo não pode gerar uma dívida superior a R$ 200, independentemente do tempo que leve para ser quitada.
Apesar da medida, os dados mostram que o endividamento e a inadimplência continuaram crescendo ao longo de 2024 e 2025. Em setembro de 2025, a inadimplência alcançou 30,5% das famílias brasileiras, o maior nível da série histórica da pesquisa, segundo análise da Neofin. O percentual de famílias que afirmam não ter condições de pagar as dívidas em atraso subiu para 13%, também recorde.
O limite de 100% nos juros aplica-se apenas a dívidas contraídas após 2 de janeiro de 2024. Consumidores que já estavam endividados antes dessa data continuam sujeitos às taxas antigas, que podem ultrapassar 440% ao ano. Isso explica por que muitas famílias ainda sofrem com o peso dos juros estratosféricos, mesmo após a mudança na legislação.
Alternativas e caminhos para sair do vermelho
Diante desse cenário, especialistas recomendam aos consumidores que considerem alternativas de crédito com juros mais baixos para quitar as dívidas do cartão. Empréstimos consignados, por exemplo, têm taxas médias de 26,5% ao ano — ainda altas, mas muito inferiores aos 450% do rotativo.
O programa Desenrola Brasil, iniciativa do governo federal para renegociação de dívidas, já ajudou mais de 14 milhões de brasileiros a limpar o nome desde seu lançamento. No entanto, a CNC aponta que o impacto ainda é limitado diante do tamanho do problema, indicando que o endividamento estrutural das famílias exige medidas mais duradouras.
Para quem utiliza cartões de crédito mas quer evitar armadilhas, vale considerar opções com programas de cashback, que devolvem parte do valor gasto em compras. Essas modalidades podem ajudar a reduzir o custo efetivo das compras quando o cartão é usado com responsabilidade e a fatura é paga integralmente no vencimento.
Projeções indicam aumento do endividamento
As projeções da CNC para o restante de 2025 não são otimistas. A expectativa é de que o endividamento continue crescendo ao longo do ano, impulsionado pelo aumento da confiança das famílias em utilizar crédito e pela necessidade de quitar dívidas antigas — mesmo com juros elevados.
A inadimplência deve manter tendência de alta, especialmente com a perspectiva de novos programas de crédito do governo que podem elevar ainda mais o comprometimento da renda das famílias brasileiras. Felipe Tavares, economista-chefe da CNC, alerta: "O cenário se agrava com a perspectiva de novos programas de crédito do governo, que podem elevar ainda mais o comprometimento da renda dos lares brasileiros".
O comprometimento médio da renda familiar com dívidas está em torno de 30%, segundo a pesquisa. Isso significa que a cada R$ 100 que entra na casa, R$ 30 vão direto para pagar parcelas e juros. Para famílias de baixa renda, esse percentual é ainda maior, chegando em alguns casos a consumir mais da metade do orçamento mensal.
Educação financeira como saída estrutural
Enquanto medidas paliativas como programas de renegociação e tetos de juros oferecem alívio temporário, especialistas concordam que a solução de longo prazo passa necessariamente pela educação financeira da população. O presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles, ressalta que a redução da taxa de juros tem impacto na diminuição da inadimplência e no aumento do acesso ao crédito pela população de menor renda.
Dados do Serasa Experian reforçam a gravidade da situação: cerca de 28% das negativações de pessoas físicas estão relacionadas a dívidas com bancos e administradoras de cartão de crédito, gerando uma dívida média de R$ 6.177 por inadimplente. A pontualidade no pagamento das faturas caiu de 80,9% no primeiro trimestre de 2024 para 78,1% no mesmo período de 2025.
Instituições como o IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) têm identificado casos em que bancos descumprem as novas regras de cobrança de juros, aplicando taxas elevadas mesmo para dívidas contraídas após janeiro de 2024. Nesses casos, os consumidores podem solicitar explicações por escrito, fazer reclamações formais no Procon ou no site consumidor.gov.br e, se necessário, buscar a Justiça.
O que fica claro é que o cartão de crédito, ferramenta que deveria facilitar a vida dos consumidores, transformou-se em uma das principais fontes de endividamento das famílias brasileiras. Sem uma mudança estrutural na relação do brasileiro com o crédito e sem políticas que garantam o poder de compra das famílias, o problema tende a se perpetuar, especialmente entre os mais vulneráveis.

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