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Das 100 toalhas aos M&Ms: O que artistas exigem em contratos e camarins

De banheiras com gelo a jornais locais, saiba quais pedidos têm razão prática e quais são puro capricho das estrelas nacionais e internacionais.
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Uma banheira com água e gelo para banho térmico. Lixeiras que precisam ser brancas ou prateadas. Um jornal local do dia. Essas foram algumas das exigências documentadas no Lollapalooza Brasil 2025, segundo informações divulgadas pela organização do festival. O que muitos consideram excêntrico, profissionais da indústria explicam como necessário para a performance de artistas que passam meses longe de casa, em turnês pelo mundo.

O universo dos contratos de celebridades desperta curiosidade desde sempre. Entre as cláusulas que regulamentam apresentações, gravações e eventos públicos, algumas chamam mais atenção: os famosos "riders" de camarim, que detalham desde a decoração do espaço até bebidas, alimentos e até mesmo a temperatura do ar-condicionado. Mas o que é verdade e o que é exagero nesses documentos?

Das 100 toalhas aos M&Ms: O que artistas exigem em contratos e camarins
Créditos: Redação

Contratos artísticos no Brasil: como funcionam

No Brasil, contratos com artistas geralmente seguem o modelo de prestação de serviços, e não o regime CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Isso ficou evidente em casos como a saída da atriz Camila Queiroz da Globo em 2021, quando o debate sobre direitos e deveres contratuais ganhou os holofotes.

De acordo com a Lei Federal nº 14.133/2021, quando o Poder Público contrata artistas consagrados pela crítica ou opinião pública, pode haver inexigibilidade de licitação. A legislação reconhece que a arte é singular e que a escolha de determinado profissional pode ser justificada pela sua exclusividade técnica ou artística.

Segundo especialistas em direito administrativo, o contrato deve especificar cachê, equipe técnica, logística de transporte e hospedagem, além das condições de camarim. Um exemplo prático apareceu em documento público de 2025: a cantora Simone Mendes teve contrato de R$ 790 mil para apresentação na Expo Alvorada, incluindo cachê da artista, músicos, produção, logística de transporte aéreo e terrestre, hospedagem, alimentação completa, segurança privada para camarins e decoração de camarim.

Exigências de camarim: necessidade ou capricho?

As listas de pedidos para camarins — os chamados "riders" — viraram folclore no meio artístico. Internacionalmente, há casos emblemáticos: Van Halen ficou conhecido por exigir M&Ms sem as castanhas marrons, Madonna pedia 20 linhas telefônicas e proibia funcionários de olharem diretamente em seus olhos, enquanto Mariah Carey solicitava filhotes de cães e gatos para brincar antes dos shows.

Ingrid Berger, coordenadora de backstage e camarins do The Town com mais de 20 edições de grandes festivais no currículo, revelou ao Purepeople em 2025 que nem sempre as exigências são fúteis. "Já construí sauna dentro de camarim, já vi muitas coisas, mas esse ano as bandas são realmente muito tranquilas", comentou sobre a edição do festival.

O rapper Post Malone, por exemplo, pediu cinco garrafas de tequila e 400 copos para organizar partidas de beer pong com sua extensa equipe. O cantor já havia triplicado seus pedidos em relação a anos anteriores, refletindo o crescimento de sua banda e equipe técnica.

O que artistas brasileiros pedem nos bastidores

Quando se trata de artistas nacionais, as exigências costumam ser mais modestas. Levantamento de 2015 mostrou que Roberto Carlos mantém seu estilo clássico: rosas brancas e vermelhas, alimentos leves como pãezinhos, frutas e queijos, além de sucos e água. Nada de bebidas alcoólicas.

Ivete Sangalo pede 100 peças de sashimi — preferencialmente salmão, atum, camarão e polvo — que devem ser entregues uma hora antes do show. Lulu Santos solicita seis cocos preparados para furar, cortados em cima e embaixo, sem gelo. Já Zeca Pagodinho reforça sua fama de simplicidade: apenas a planta palma de São Jorge na decoração e cerveja bem gelada.

Alguns pedidos têm justificativa médica. Aline Barros, por exemplo, exige que não haja derivados de leite em seu camarim porque é alérgica à lactose. Paula Fernandes solicita uma esteira de corrida, mantendo sua rotina de exercícios mesmo em turnê.

Contratantes de shows relatam que artistas sertanejos lideram em volume de bebidas alcoólicas. A dupla Marcos e Belutti, segundo dados de 2016, pedia duas garrafas de uísque, uma de vodka, outra de espumante, uma de vinho tinto seco e 12 latas de cerveja — apenas para o camarim dos artistas, já que o espaço da banda e equipe técnica não inclui álcool.

Tendências de 2025: sustentabilidade nos camarins

O Lollapalooza Brasil 2025 apontou uma mudança de comportamento. Entre as exigências mais recorrentes dos artistas internacionais, destacam-se itens sustentáveis: água de caixinha e galões em vez de garrafas plásticas individuais, águas saborizadas e chás naturais substituindo refrigerantes, velas aromatizadas, óleos essenciais, incensos e palo santo.

Outro item que virou tendência são os suplementos em pó de eletrólitos para auto-hidratação, especialmente produtos como Hydrolift. A preocupação com o meio ambiente se reflete na priorização de itens de vidro em vez de plástico descartável.

Lana Del Rey, no MITA Festival 2024, pediu pizza de queijo, macarrão com molho de tomate e arroz integral com tofu. Sua equipe solicitou frutas, chás, sucos, legumes, bolo de cenoura e receitas air fryer. A banda Florence + The Machine exigiu cafeteira francesa com café Lavazza, cesta de frutas frescas como bananas, manga, maçã e abacate, além de gummy bears, queijo local e produtos para fazer guacamole.

Cláusulas contratuais além do camarim

Os contratos artísticos vão muito além das exigências de bastidores. Documentos frequentemente incluem cláusulas sobre direitos de imagem, exclusividade de representação, agenda de compromissos e condições para rescisão.

A novela Coração Acelerado, prevista para estrear em 2026 na Globo, retrata essa realidade. O personagem João Raul, interpretado por Filipe Bragança, vive um cantor sertanejo "preso a um contrato sufocante com o empresário", segundo a sinopse divulgada. A trama abordará assédio moral e sexual, exploração de artistas e contratos abusivos na indústria sertaneja.

Casos reais ilustram os riscos. Em 2025, artistas brasileiros e portugueses denunciaram a empresa Decibell por descumprimento de contratos de agenciamento. Muitos pagaram valores entre 1.290 e 1.500 euros por pacotes que incluíam assessoria de imprensa, fotos e vídeos para redes sociais, mas relataram que os serviços não foram entregues. O mágico português Ruben destacou que assinou contrato de exclusividade, ficando impedido de buscar outras oportunidades enquanto a empresa não fechava apresentações.

Mitos e verdades sobre as cláusulas

Nem tudo que circula sobre contratos de famosos é verdade. Um dos mitos mais comuns é que artistas podem cancelar shows se suas exigências não forem atendidas. Na prática, o cancelamento por descumprimento de rider pode gerar multas contratuais significativas para ambas as partes.

Outro equívoco envolve a interpretação de pedidos aparentemente excêntricos. O caso clássico do Van Halen e os M&Ms sem castanhas marrons tinha um propósito: a banda incluía essa exigência específica para testar se o contratante havia lido todo o contrato técnico. Se encontrassem as castanhas marrons, era sinal de que outras especificações técnicas importantes — relacionadas à segurança e equipamentos — poderiam ter sido ignoradas.

Rodrigo Faro, em entrevista recente ao UOL, esclareceu outro aspecto contratual. O apresentador recusou convite para novela da Globo citando impossibilidade de mudança para o Rio de Janeiro durante as gravações. "Agora novela é complicado nessa altura da minha vida — ter que vir morar no Rio e deixar a família, as minhas filhas", explicou. O caso demonstra que contratos longos exigem disponibilidade total, aspecto nem sempre compreendido pelo público.

A realidade dos bastidores revelada por profissionais

Maria (nome fictício), que trabalha como artist liaison — espécie de babá de artistas — em um dos maiores festivais de verão de Portugal, revelou em entrevista ao MAGG que a realidade dos bastidores mistura profissionalismo com excessos.

Segundo ela, o consumo de substâncias é real, mas não generalizado. "Há sexo, há drogas, há rock n' roll, mas há muitos outros estilos musicais", ponderou. A profissional relatou ter presenciado desde consumo de crack improvisado através de elementos de decoração até bandas que precisaram ser trancadas no camarim para serem obrigadas a subir ao palco, completamente embriagadas.

Sobre exigências, Maria citou casos curiosos: "Desde listas de pedidos para dias pares e listas para dias ímpares, fornecerem esquemas/plantas para indicar o posicionamento das batatas fritas e doces num camarim, garrafas que custam mais que um salário nacional".

Legislação e fiscalização dos contratos

A Receita Federal brasileira já demonstrou atenção aos contratos de celebridades. Em 2020, mais de 30 artistas da Globo foram intimados pelo Fisco para explicar a escolha por contratos no formato PJ (pessoa jurídica) em vez do vínculo CLT. A chamada "pejotização" permite que uma empresa da pessoa seja contratada para intermediar pagamentos, gerando diferentes tributações.

Para contratos públicos, o Tribunal de Contas da União estabelece critérios rígidos. É necessário comprovar que o artista é consagrado pela crítica ou opinião pública, que a contratação ocorre diretamente ou por empresário exclusivo registrado, e que existe justificativa de preço compatível com o mercado.

Especialistas recomendam que artistas em início de carreira busquem orientação jurídica antes de assinar contratos de exclusividade ou agenciamento. André Piolanti, empresário artístico, alertou que "muitos artistas procuram agências com a expectativa — muitas vezes ilusória — de que a simples assinatura de um contrato trará notoriedade imediata", mas a construção de carreira exige trabalho consistente.

O futuro dos contratos artísticos

A indústria do entretenimento passa por transformações. Plataformas de streaming modificaram a distribuição de conteúdo, influenciando os modelos contratuais. Raphael Montes, autor de sucessos como "Beleza Fatal", exemplifica essa mudança ao acumular contratos simultâneos com Netflix e Globoplay em 2025, ampliando seu alcance em múltiplas plataformas.

Os riders de camarim também evoluem. A geração atual de artistas demonstra maior consciência ambiental e preocupação com saúde, refletida em pedidos por alimentos orgânicos, suplementos e redução de plásticos descartáveis. Essa tendência deve se intensificar nos próximos anos.

Por fim, a transparência sobre condições contratuais aumenta gradualmente. Festivais como Lollapalooza e The Town divulgam algumas exigências dos artistas, desmistificando o tema e mostrando que muitos pedidos têm justificativas práticas ou profissionais, longe do estereótipo de capricho injustificado.


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