Seis anos de distância dos holofotes e uma decisão que surpreendeu o Brasil inteiro. Marcello Antony, 59 anos, anunciou em junho de 2024 sua nova jornada como consultor de imóveis de luxo pela The Agency em Portugal. O ex-galã da Globo, conhecido por papéis marcantes em produções como "Mulheres Apaixonadas" e "Paraíso Tropical", não está sozinho nessa trajetória. Uma lista crescente de artistas brasileiros vem redescobrindo propósitos longe das câmeras, provando que sucesso e realização nem sempre caminham juntos.
A transformação de Antony ganhou contornos ainda mais impressionantes em setembro do mesmo ano. O ator assumiu a responsabilidade pela venda da mansão mais cara de Portugal, avaliada em 32 milhões de euros — cerca de R$ 200 milhões. Localizada em Estoril, na região da Riviera Portuguesa, a propriedade pode render ao brasileiro uma comissão estimada em R$ 10 milhões, caso a transação se concretize pelo valor anunciado.
Em entrevista ao jornal O Globo, Marcello explicou como surgiu a oportunidade. "Ajudei uns três amigos que decidiram se mudar para Portugal para que encontrassem apartamento, porque eu já estou morando aqui há seis anos. Nessas visitas conheci um corretor e acabei fazendo amizade com ele. No final das contas, ele acabou fazendo um convite formal para mim", revelou. O artista enfatizou que nunca abandonou completamente a atuação, mas encontrou no mercado imobiliário uma forma de monetizar conhecimentos adquiridos ao longo dos anos morando na Europa.

Da fama infantil ao divã profissional
Enquanto Antony conquistava espaço no mercado de luxo europeu, outra trajetória chamava atenção no Brasil. Cecília Dassi, eternizada como a pequena Sandrinha de "Por Amor" em 1997, construiu uma carreira sólida como psicóloga após deixar definitivamente a televisão em 2012. Aos 35 anos, a gaúcha de Esteio mantém um consultório no Rio de Janeiro e acumula mais de 429 mil seguidores no Instagram, onde compartilha conteúdos sobre saúde mental e desenvolvimento pessoal.
A decisão de abandonar 17 anos de carreira na Rede Globo não foi impulsiva. Durante entrevista à revista Nove, Cecília revelou que, aos poucos, descobriu que ser atriz não era sua missão. "Eu fazia algo que curtia, mas não estava fazendo a diferença e construindo algo que fizesse sentido para mim, não era meu propósito", explicou. A ex-atriz contou que, mesmo pensando em conquistas como ganhar um Oscar, não sentia que isso a preencheria emocionalmente.
Formada em Psicologia pela Universidade Estácio de Sá, Cecília precisou trancar o curso em 2009 para gravar "Viver a Vida", sua penúltima novela. A conciliação entre os estudos e as gravações no Projac se tornou cada vez mais difícil, até que a balança pendeu definitivamente para a nova vocação. Hoje, além do atendimento clínico, ela atua como palestrante e mantém um canal no YouTube com cerca de 164 mil inscritos, focado em temas como ansiedade, depressão e inteligência emocional.
Quando o mercado imobiliário vira refúgio
O fenômeno não se restringe a Antony. Carlos Casagrande, conhecido por trabalhos como "I Love Paraisópolis" (2015), também deixou a dramaturgia brasileira para empreender. Atualmente, o ator mora em Miami, nos Estados Unidos, ao lado da esposa Marcelly e dos filhos Theo e Luca, dedicando-se integralmente aos negócios longe dos palcos e estúdios.
Já Daniel Erthal, que participou de "Malhação" em 2005, seguiu caminho diferente. Após decepções na carreira artística, o ator hoje trabalha como vendedor ambulante de bebidas. Em entrevista, Erthal não escondeu as dificuldades enfrentadas na transição. "Caí, fracassei, mas estou em pé novamente", declarou, mostrando que nem todas as mudanças de carreira acontecem por escolha ou resultam em prosperidade imediata.
O contexto português se destaca nesse movimento migratório. Segundo dados revelados por Marcello Antony à CNN Brasil, um imóvel de alto padrão em Portugal não pode ser encontrado por menos de R$ 30 milhões. O mercado inflacionou também os preços das propriedades mais acessíveis, que estão na faixa dos R$ 2,5 milhões. Esse cenário aquecido criou oportunidades para profissionais que, como o ator, construíram redes de relacionamento durante a vida artística e agora as aplicam em novos contextos.
Entre a terapia e a cozinha gourmet
Outros nomes compõem esse mosaico de reinvenções. Davi Lucas, que também atuou em "Alma Gêmea" ao lado de Cecília Dassi, trocou os sets de filmagem pelo consultório de psicologia. A coincidência profissional entre os dois ex-colegas de elenco revela como determinadas áreas atraem artistas em busca de conexões mais profundas com o público — não mais através de personagens, mas por meio do cuidado direto com as pessoas.
Já Milhem Cortaz encontrou na gastronomia uma válvula de escape durante a pandemia. O hábito de fazer pães artesanais para relaxar transformou-se em negócio: o ator inaugurou a padaria "Fermento de Milhem". Mesmo continuando ativo na teledramaturgia — em 2024, ele brilhou como o trambiqueiro Osmar na novela "Volta por Cima", da Globo — Cortaz demonstra que é possível equilibrar múltiplas paixões profissionais.
Liliana Castro, que interpretou Joana em "Paraíso Tropical" (2007) e Dalila em "Alma Gêmea" (2005), mudou-se para os Estados Unidos e hoje divide o tempo entre aulas de yoga e projetos de design de interiores. A atriz afirmou que dificilmente voltará para a teledramaturgia, mas não fechou portas para trabalhos pontuais, como sua participação na série "Impuros" em 2019.
O peso das expectativas sociais
As trajetórias desses artistas revelam um padrão comum: a pressão social para permanecer em carreiras que trazem status, mas não necessariamente felicidade. Cecília Dassi abordou diretamente essa questão em suas redes sociais, quando "Por Amor" entrou em reprise no canal Viva. "Continuo ouvindo que eu 'tinha' que 'voltar pra telinha'. Minha hipótese é que isso venha de uma ideia (muito comum) de que ser 'ator famoso' é o sonho de qualquer pessoa", escreveu.
A psicóloga pontuou que muitas pessoas não compreendem sua decisão justamente porque a fama é vista como um objetivo inquestionável. "Na cabeça de algumas pessoas, não faz sentido eu ter deixado a carreira. Mas eu tenho direito, assim como todos vocês têm, de dizer não, mesmo que para algo que pareça muito legal pra todo mundo", completou. Segundo ela, essa pressão externa torna ainda mais difícil migrar de carreira, especialmente quando a escolha envolve abandonar profissões consideradas glamorosas.
Os dados reforçam que não se trata de casos isolados. De acordo com pesquisas sobre transição de carreira, a insatisfação profissional atinge também quem aparentemente conquistou tudo — reconhecimento público, estabilidade financeira e prestígio social. A busca por realização pessoal supera, em muitos casos, os benefícios materiais que determinadas profissões oferecem.
Formação acadêmica como ponte para o futuro
Um elemento recorrente nessas histórias é a qualificação acadêmica. Enquanto Cecília Dassi se formou em Psicologia, outros artistas investiram em áreas diversas. Juliana Paes, por exemplo, é formada em Publicidade e Propaganda pela ESPM, embora nunca tenha exercido a profissão diretamente. A atriz afirma que o aprendizado contribui para sua vida pessoal e profissional. "A Publicidade abre caminhos legais. E eu faço meu marketing o tempo todo", contou em entrevista à revista Caras.
Sandy, ícone da música brasileira, cursou Letras na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) e concluiu a graduação aos 26 anos. A cantora justificou que o conhecimento adquirido seria útil para seu trabalho como compositora, influenciando suas letras com referências literárias e poéticas. Paolla Oliveira, antes de se consolidar como atriz, trabalhou como fisioterapeuta — profissão que exerceu brevemente antes de se dedicar integralmente à dramaturgia.
Esses exemplos demonstram que ter formação em áreas distintas da atuação funciona como rede de segurança e, principalmente, como possibilidade real de mudança. Hélio de la Peña, um dos criadores do Casseta e Planeta, é formado em Engenharia de Produção e chegou a trabalhar no desenvolvimento do projeto da hidrelétrica de Itaipu antes de se dedicar exclusivamente ao humor. A bagagem técnica não foi desperdiçada, mas reorientada para objetivos diferentes.
A vida além do Brasil
A mudança de país aparece como fator decisivo em várias dessas reinvenções. Ana Paula Arósio, símbolo de beleza nos anos 2000 e estrela de "Terra Nostra", vive atualmente em Londres com o marido Henrique Plombon. Afastada da televisão desde meados de 2010, a atriz se dedica à criação de cavalos em uma fazenda, longe da pressão dos holofotes brasileiros.
Ludmila Dayer seguiu caminho similar. Seu último papel na televisão brasileira foi em 2013, em "Louco por Elas". Desde 2006, a atriz mora em Los Angeles, Estados Unidos, onde abriu a produtora Lupi Productions. Naturalizada norte-americana, Ludmila mantém carreira artística, mas focada no mercado internacional, com seu trabalho mais recente sendo o filme "Colours".
Erik Marmo, que brilhou em "Mulheres Apaixonadas", reside nos Estados Unidos desde 2014 e tornou-se cidadão norte-americano em 2024. Durante participação no podcast Filha da Mãe, o ator explicou que a decisão de deixar o Brasil veio em momento de transição profissional. "Eu estava fazendo novela e teatro no Brasil, mas o contrato com a TV estava acabando, e a gente veio pra ver", contou. O que começou como experiência transformou-se em mudança definitiva.
O outro lado da moeda
Nem todas as histórias são de sucesso voluntário. Marcos Oliveira, eternizado como Beiçola em "A Grande Família", revelou publicamente estar desempregado e precisando de ajuda financeira. O caso do ator ilustra que a fama na televisão não garante estabilidade financeira permanente, e que a transição de carreira nem sempre é planejada ou bem-sucedida.
Alexandre Rodrigues, o Buscapé de "Cidade de Deus", também enfrentou dificuldades para consolidar carreira após o sucesso do filme. Em entrevista à revista Veja, o ator contou que sempre era chamado pela Globo apenas para papéis de estereótipo racial, como escravos em novelas de época. Hoje, ele se reinventa em projetos pequenos e chegou a trabalhar como motorista de aplicativo para se manter ativo financeiramente.
Essas trajetórias mais difíceis revelam que a decisão de mudar de carreira nem sempre parte de um lugar de privilégio ou escolha. Muitas vezes, a necessidade financeira ou a falta de oportunidades empurram profissionais para caminhos inesperados. A diferença está justamente na preparação — quem investiu em formação alternativa ou construiu redes de relacionamento fora do meio artístico consegue transitar com mais segurança.
Reinvenção como modelo inspirador
Helena Rizzo, hoje referência internacional na gastronomia, começou a carreira como modelo. A chef é exemplo de como talentos podem ser redirecionados para áreas completamente distintas, conquistando reconhecimento e respeito em novos campos. Sua história, assim como a de Marcello Antony, Cecília Dassi e tantos outros, inspira quem pensa em recomeçar profissionalmente.
Max Fercondini adotou mudança ainda mais radical. Após anos atuando em novelas, o ator hoje vive em um veleiro em Portugal, escolhendo estilo de vida simples e em contato direto com a natureza. Sua decisão reflete valores que vão além da carreira: a busca por liberdade, desaceleração e conexão com elementos fundamentais da existência.
Priscilla Alcantara, ex-apresentadora do SBT, fez transição dentro do próprio universo artístico. Conhecida pela carreira no gospel, a cantora decidiu migrar para o pop, inclusive retirando o sobrenome artístico "Alcantara" para marcar simbolicamente essa mudança. "Eu sempre via minha arte de uma maneira muito livre, então, mesmo quando eu estava em um gênero mais vinculado como o gospel, eu não me enxergava limitada àquele nicho", afirmou em entrevista ao programa da apresentadora Eliana. O álbum "Priscilla" e o single "Quer Dançar", em parceria com Bonde do Tigrão, consolidaram sua reinvenção no cenário pop brasileiro.
Especialistas em transição de carreira apontam que o processo exige planejamento, coragem e resiliência. Para quem deseja mudar de área, especialmente partindo de profissões com grande visibilidade pública, é fundamental adquirir habilidades exigidas pelo novo mercado. Cursos profissionalizantes, networking estratégico e oportunidades de estágio ou projetos temporários facilitam essa jornada. A experiência dos artistas mencionados reforça que a mudança é possível em qualquer fase da vida, desde que haja propósito claro e disposição para recomeçar.

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